7:18Nunca dependa de um homem

por Vera Iaconelli, na FSP

Mulheres foram e são abandonadas com a prole em condições precárias, depois de terem aberto mão do estudo e do trabalho para cuidar da família. Enquanto isso, os maridos fazem suas carreiras sem se preocupar com as atividades domésticas e o cuidado com os filhos

Nunca dependa de um homem é o mantra preferido que mães e pais dizem para as filhas desde os anos 1980. Pode parecer óbvio hoje, mas, para mim, que nasci nos anos 1960, numa família antiquada, a pregação ainda era pelo casamento-sustento. Daí a fala revolucionária de Virginia Woolf, que, em “Um teto todo seu” (1929), defendia que as mulheres precisavam de independência para escapar das restrições impostas pela sociedade e para poder criar.

O insistente conselho dos pais é fruto de uma conjunção de fatores. Mulheres foram e são abandonadas com a prole em condições precárias, depois de terem aberto mão do estudo e do trabalho para cuidar da família. Enquanto isso, os maridos fazem suas carreiras sem se preocupar com as atividades domésticas e o cuidado com os filhos; nesse aspecto, dependem delas, mas, ao se separarem, logo arranjam outra para a função.

A machosfera acusa as mulheres de dependerem do sustento masculino, mas esquece que esse arranjo é histórico e compulsório e que a mulher solteira sofria inúmeras formas de violência às quais o casamento, paradoxalmente, oferecia alguma proteção.

Seja por aspiração pessoal, seja pela falta de parceria real dos homens, os pais foram prudentes ao indicar um caminho mais autônomo para suas filhas. Lembrando que nem toda mulher sequer deseja casar ou ter filhos.

As conquistas femininas não vieram acompanhadas da contrapartida masculina no trabalho doméstico, e as mulheres se viram assumindo ambas as funções integralmente. A falta de parceria com os homens trouxe ressentimento e a percepção, corroborada por pesquisas, de que os homens tendem a ter maiores benefícios com o casamento do que as mulheres (Bulanda et al., Social Science & Medicine, 2016).

As queixas uniram as mulheres, e a violência afastou-as dos homens. Assim, se o sustento, a maternidade, as amizades e a vida social não dependem mais deles, o mantra parental estava cumprido.

Mas o mesmo não se pode dizer dos homens. Com menor escolaridade (Pnad Contínua do IBGE), sem saber cuidar de si e da prole, e tendo poucos recursos para se abrir com amigos e familiares, viram-se numa situação bastante desconfortável e tiveram que repensar sua posição. Alguns se reinventaram e assumiram a parceria justa e amorosa. Outros esperam que a mulher seja rainha do lar, ou ainda, que acumule as funções de provedora e de cuidadora. Não conseguindo mantê-las subservientes, partem para a franca violência.

Esse impasse aparece de forma cristalina no discurso da antifeminista Michelle Bolsonaro. Ela prega que a mulher pode assumir o sustento, até cargos políticos, sem descuidar da casa e servindo ao marido. Puro suco de neoliberalismo, de dar nó na cabeça de qualquer cristão: escancara a dupla jornada de trabalho feminino, a remunerada e a não remunerada, como uma virtude. Contradição que desembocou em discórdia partidária e na discussão sobre as mulheres perderem o direito ao voto (!).

Pais e mães dos anos 2020 precisam começar a dizer para os filhos: “Não dependam das mulheres”, ou seja, cuidem de suas roupas, de sua comida, de sua casa, de sua agenda, da prole, de sua saúde. Só assim criarão homens à altura do seu tempo.

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