por Lea Oksenberg, no Vigília Comunica
O termômetro na parede marca 4 graus, e a temperatura do chuveiro levanta o ânimo de tirar a roupa: 44 graus de puro vapor e dignidade. Você conta até dez, se enche de coragem, se enfia ali debaixo e, por cinco minutos, sente que venceu o inverno de Curitiba. É a glória.
Até que, sem aviso, o paraíso desaba. A água morna vira um jato da Antártida. Jesus armado até os dentes.
O que se faz numa hora dessas, sozinha em casa? Ensaboada é que não dá para abrir uma CPI do gás. O jeito é correr. Você abre a porta do box, o vento do corredor te acerta como um tapa na cara, e lá vai você — descalça, batendo os dentes, tateando as paredes — cruzando a casa em velocidade recorde até a área de serviço. Tudo para apertar um botão e implorar para o aquecedor reatar o eterno com a Compagas.
Faz o caminho inverso, volta para o chuveiro e, quando a água esquenta, o alívio é tão grande que dá vontade de chorar abraçada ao azulejo.
E é justamente aí, com a pele voltando à cor normal e o coração desacelerando, que o vapor do banheiro vira reflexão. Você olha para aquela água abundante e pensa na ironia do nosso privilégio. Se para quem tem teto, quatro paredes e um aquecedor digital a gás, alguns minutos de pane viram um drama, imagine para quem passa a noite inteira tentando negociar com esses mesmos 4 graus na calçada da Rua XV?
Ou para quem está ali do lado, num micro-apartamento, encarando um chuveiro elétrico, mas que ameaça queimar a resistência a qualquer segundo.
Na real, o nosso “heroísmo” de apartamento tem botão de reiniciar. O frio de verdade, aquele que gela quem não tem abrigo ou quem luta para pagar a conta de luz, não se resolve com uma simples corrida descalça pelo corredor.
Para esses, o inverno não tem a graça e resta apenas o sereno gelado da noite cobrando o preço da sobrevivência — um banho de lua que, em vez de ninar, congela.
Tomo um banho de lua/Fico branca como a neve/Se o luar é meu amigo/Censurar ninguém se atreve/É tão bom sonhar contigo/Oh! Luar tão cândido (Banho de lua – versão de Fred Jorge)