

Foto e texto de Ricardo Marajó
Naquela noite, eu me preparava para fotografar a apresentação da Camerata Antiqua de Curitiba, na Capela Santa Maria.
Antes que o primeiro acorde ocupasse o salão, antes que o silêncio fosse vencido pela música, algo me chamou a atenção do lado de fora.
Os músicos chegavam.
Atravessavam a luz cênica que iluminava os paredões da capela, carregando seus estojos como quem transporta não apenas instrumentos, mas aquilo que ainda estava por acontecer.
Ao passarem por aquele feixe de luz, transformavam-se em silhuetas.
E foi impossível não fotografá-los.
Havia naquela travessia algo que ia além da simples chegada.
Por um instante, tive a impressão de que a própria música passava por ali.
Ainda muda.
Ainda sombra.
Ainda promessa.
Naquela parede, a luz parecia reger.
As sombras obedeciam.
E os músicos, ainda em silêncio, já tocavam.
Talvez toda fotografia seja uma forma silenciosa de música.
Uma organiza sons.
A outra organiza luz.
Se a música compõe o silêncio, a fotografia compõe a sombra.
Ambas dependem do invisível.
Ambas nascem daquilo que antecede.
Fiquei pensando que toda arte começa antes de se revelar.
Antes do aplauso, há o recolhimento.
Antes da execução, há a travessia.
Antes do som, há o passo contido de quem caminha carregando consigo a disciplina, o estudo e a delicadeza de transformar silêncio em emoção.
Há uma beleza particular nesse instante anterior.
Naquilo que ainda não aconteceu, mas já se anuncia.
Penso que viver também seja isso:
atravessar zonas de sombra confiando que, do outro lado, há sempre uma luz à espera.
E talvez toda grande melodia nos ensine, em segredo, a mesma lição:
há sons que nascem primeiro no escuro, para só depois encontrarem sua plenitude na luz.