9:33Linhas

Foto e texto de Ricardo Marajó

Às vezes imagino que a vida não é feita de dias, mas de linhas.
Linhas no chão, linhas no tempo, linhas invisíveis que se cruzam sem pedir licença.
Naquele instante, duas pessoas atravessam o mesmo espaço.
Caminham em direções opostas, como se o encontro fosse apenas um detalhe do trajeto.
Não se olham.
Não param.
Não sabem — ou fingem não saber — que acabaram de dividir um fragmento de história.
As linhas sob seus pés seguem paralelas, rigorosas, quase matemáticas.
Mas a vida não é exata.
Ela acontece nos desvios.
Cada pessoa que cruza a nossa linha carrega um mundo inteiro:
memórias, dores, alegrias, medos, sonhos interrompidos.
E mesmo quando o encontro dura apenas o tempo de um passo, algo fica.
Um vestígio.
Uma dobra no tempo.
Talvez seja por isso que certos lugares parecem carregados de silêncio.
Não é ausência — é excesso de histórias que passaram ali sem serem notadas.
Seguimos andando, acreditando que estamos sozinhos na nossa linha,
mas não estamos.
Nunca estivemos.
Porque toda vida é um cruzamento.
E mesmo quando não percebemos,
levamos um pouco do outro conosco —
e deixamos, discretamente, um pouco de nós na linha do tempo de alguém.
Depois, seguimos.
Como se nada tivesse acontecido.
Como se a vida não fosse feita exatamente desses encontros breves
que nunca voltam a se repetir do mesmo jeito.

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