6:03Edison, a Enel e o breu

por Carlos Castelo

     No O Senhor dos Anéis, águias salvam Frodo e Sam. Em O Conde de Monte Cristo, uma carta resolve magicamente a vida do herói. Em Nárnia, Aslan ressuscita e vira a batalha. Por que na minha crônica, Thomas Edison, o inventor da lâmpada, não poderia aparecer em meu apartamento justamente no dia em que a Enel me deixava há 30 horas sem energia elétrica?

Pois surgiu.

Olhei para trás e lá estava ele: de colete e com uma expressão meio ofendida, como se eu tivesse apagado a luz da casa dele.

— Meu amigo, disse ele, acendendo uma lâmpada que tirou do bolso como quem puxa uma carteira — Ouvi dizer que você está às escuras há trinta horas. Procede?

— Procede, mestre. Inclusive já conversei até com o aspirador de pó desligado, só pra ter alguém com quem desabafar.

Edison suspirou.

— Trinta horas! Passei a vida trabalhando para que o mundo tivesse luz, e este é o resultado? Uma empresa chamada… como é mesmo o nome dela?

— Enel.

— Enel. Parece nome de pomada para hemorroidas, resmungou. — E são eles os responsáveis por isso?

Expliquei. Distribuição, manutenção, cabos, transformadores, o ecossistema técnico inteiro. Fora a ventania, as árvores que não podam, uma prefeitura inepta. Ele ouviu sério, feito alguém que avalia um motor que funciona apenas quando quer.

— Sabe, disse ele, — a lâmpada eu inventei. Mas burocracia e hipocrisia, essas duas ninguém controla.

E foi passear pela casa, iluminando cada cômodo com sua lâmpada de bolso.

Era como ter um vagalume norte-americano dos anos 1900 me guiando pelos escombros da minha rotina.

Na cozinha, Edison abriu a geladeira.

— O sorvete derreteu…

— Nem me fale. Virou sopa de flocos.

— Oh, shit! Anotou algo num caderninho. Não sei se era uma reclamação ou uma nova patente.

Quando chegamos à sala, ele se sentou no sofá, cruzou as pernas e me encarou:

— E então? O que você faz quando acaba a luz por tanto tempo?

— Reclamo no X-Twitter.

Ele ponderou.

— Hum, interessante. No meu tempo a gente só reclamava para a vizinhança. Mas seu método atinge muito mais gente e, pelo jeito, resolve a mesma quantidade de problemas: zero.

Ficamos em silêncio um instante, até que um clique ecoou pela casa. A luz tinha voltado. Todas as lâmpadas se acenderam ao mesmo tempo, como se estivessem ensaiando um número musical da Broadway.

Edison abriu um sorriso.

— Viu? Minha presença ajudou.

— Não foi bem assim, mestre. Ela sempre volta quando perco todos os congelados do freezer.

Ele levantou, deu tapinhas amigáveis no meu ombro e se desfez no ar.

Fiquei sozinho na sala iluminada.

E pensei:

A eletricidade voltou, Edison sumiu. E eu continuo aqui esperando a próxima ventania levar toda a minha comida para a lata de lixo.

 (Publicado na Fórum)

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