por Carlos Castelo
No O Senhor dos Anéis, águias salvam Frodo e Sam. Em O Conde de Monte Cristo, uma carta resolve magicamente a vida do herói. Em Nárnia, Aslan ressuscita e vira a batalha. Por que na minha crônica, Thomas Edison, o inventor da lâmpada, não poderia aparecer em meu apartamento justamente no dia em que a Enel me deixava há 30 horas sem energia elétrica?
Pois surgiu.
Olhei para trás e lá estava ele: de colete e com uma expressão meio ofendida, como se eu tivesse apagado a luz da casa dele.
— Meu amigo, disse ele, acendendo uma lâmpada que tirou do bolso como quem puxa uma carteira — Ouvi dizer que você está às escuras há trinta horas. Procede?
— Procede, mestre. Inclusive já conversei até com o aspirador de pó desligado, só pra ter alguém com quem desabafar.
Edison suspirou.
— Trinta horas! Passei a vida trabalhando para que o mundo tivesse luz, e este é o resultado? Uma empresa chamada… como é mesmo o nome dela?
— Enel.
— Enel. Parece nome de pomada para hemorroidas, resmungou. — E são eles os responsáveis por isso?
Expliquei. Distribuição, manutenção, cabos, transformadores, o ecossistema técnico inteiro. Fora a ventania, as árvores que não podam, uma prefeitura inepta. Ele ouviu sério, feito alguém que avalia um motor que funciona apenas quando quer.
— Sabe, disse ele, — a lâmpada eu inventei. Mas burocracia e hipocrisia, essas duas ninguém controla.
E foi passear pela casa, iluminando cada cômodo com sua lâmpada de bolso.
Era como ter um vagalume norte-americano dos anos 1900 me guiando pelos escombros da minha rotina.
Na cozinha, Edison abriu a geladeira.
— O sorvete derreteu…
— Nem me fale. Virou sopa de flocos.
— Oh, shit! Anotou algo num caderninho. Não sei se era uma reclamação ou uma nova patente.
Quando chegamos à sala, ele se sentou no sofá, cruzou as pernas e me encarou:
— E então? O que você faz quando acaba a luz por tanto tempo?
— Reclamo no X-Twitter.
Ele ponderou.
— Hum, interessante. No meu tempo a gente só reclamava para a vizinhança. Mas seu método atinge muito mais gente e, pelo jeito, resolve a mesma quantidade de problemas: zero.
Ficamos em silêncio um instante, até que um clique ecoou pela casa. A luz tinha voltado. Todas as lâmpadas se acenderam ao mesmo tempo, como se estivessem ensaiando um número musical da Broadway.
Edison abriu um sorriso.
— Viu? Minha presença ajudou.
— Não foi bem assim, mestre. Ela sempre volta quando perco todos os congelados do freezer.
Ele levantou, deu tapinhas amigáveis no meu ombro e se desfez no ar.
Fiquei sozinho na sala iluminada.
E pensei:
A eletricidade voltou, Edison sumiu. E eu continuo aqui esperando a próxima ventania levar toda a minha comida para a lata de lixo.
(Publicado na Fórum)