por Marcelo Brechler, na FSP
Desde sua volta, ele dispensou os moderados e polarizou opiniões entre amor e ódio. Com críticas e apoios, é o mais controverso jogador do país dos últimos 20 anos
Santos e Neymar respiram aliviados por terem cumprido a missão, ainda que mínima, de manter o clube na primeira divisão. Com cinco gols nos últimos cinco jogos, o camisa 10 foi o grande protagonista da arrancada final. Agora que o ano esportivo de Neymar acabou, vale a avaliação de sua volta ao Brasil.
E, antes de ter minha própria percepção, me fascina o poder de divisão que o jogador gera no país.
Assim como ser de esquerda ou de direita, querer mais ou menos intervenção do Estado na economia ou nas pautas sociais, assim como a camisa amarela, a cor vermelha ou a mortadela, achar que Neymar jogou bem ou jogou mal parece algo que faz parte de um posicionamento político.
O futebol é uma excelente representação da sociedade. Brasil afora, quem se identifica com um lado ideológico (ou pelo menos que odeia mais o outro lado) precisa reduzir suas opiniões mais moderadas para se encaixar em um dos polos cada vez mais distantes. Com Neymar, o mesmo fenômeno acontece.
Quem não gosta de Neymar precisa torcer para que ele não jogue. Porque, quando joga, costuma ir bem. E é preciso manter o discurso de um jogador acabado, descompromissado, mais interessado na Kings League ou nos amigos, um príncipe que abdicou do trono futebolístico, que lhe seria dado depois que Messi e Cristiano saíssem de cena, para aproveitar a vida em cruzeiros ou torneios de pôquer.
Quem o defende até as últimas consequências vê no Neymar hipotético o jogador ideal. Porque quando jogou foi relativamente bem. Fez oito gols na Série A: um contra Flamengo e Mirassol e outros seis contra os rebaixados Juventude (cinco) e Sport. Detalhando mais e comparando com quem fez ao menos 19, foi o segundo melhor do torneio em chutes certos, terceiro em passes no terço final, quarto em passes decisivos e sétimo em dribles —segundo o Sofascore. Nada mal. E também nada super destacado, como um super jogador sugere que vá apresentar.
Normalmente quem critica o camisa 10 é esquerdalha e quem o elogia é gado. Uma manada de haters e apoiadores, quase na mesma proporção, se manifesta em cada post sobre cada movimento do jogador mais politizado (não por ele, mas por todo este entorno) que o Brasil já teve.
Sim, porque por mais que Sócrates tivesse os posicionamentos que tinha ou que Romário tenha se tornado senador depois de se aposentar, nenhum atleta brasileiro teve a capacidade de dividir o país em posições tão radicais como Neymar consegue.
De forma moderada (o que não me torna parte do centrão), o ano de “Ney” em seu retorno ao Brasil me transmite frustração. Desde sua ida para o PSG, atuou em 46% dos jogos de suas equipes. No Santos, jogou 58% desde sua estreia —um rendimento que deveria ser encarado como ok para quem retorna de uma cirurgia no joelho, mas nos últimos oito anos a indisponibilidade física é uma constante. O desempenho em campo também oscila entre o bom e o “poderia ser melhor em outro time que o acompanhasse”. A questão é: que outro time vai apostar em quem há oito anos não joga metade das partidas?
Em fevereiro, Neymar completará 34 anos, metade de sua vida como jogador profissional. Não sabemos se vai para a Copa do Mundo, não sabemos se ainda pode ser decisivo em jogos grandes. Mas não há dúvidas sobre o amor e o ódio. Todos já decidiram se passam pano ou atiram pedras no melhor e mais controverso jogador brasileiro dos últimos 20 anos.