6:09Muita fé de um Brasil brasileiro

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

É um breu, sem direito à luz, sacrossanta virgem ou ímpia que seja, que nos ilumine os espaços e o chão. Melhor conviver com a escuridão do interior da Igreja de Santo Alexandre, com os olhos bem abertos para, em minutos, delinear seu interior, suas imagens e sua paz. Sua escuridão é exigida, me contam, porque não pode receber luz natural direta em algumas paredes e móveis por ter sido foi construída no século XVII.

O templo, que já foi sede da Companhia de Jesus, na época do Brasil Colônia na década de 1650, era chamado de igreja de São Francisco Xavier e faz parte do Museu de Arte Sacra. A arquitetura barroca original jesuítica, que prezava por paredes espessas e poucas aberturas, garantia (garante) o controle térmico. Parece algo surreal: em pleno século XXI a iluminação provocar estragos em madeira nobre. Mas, a água do mar não corrói metais?

A luz, especialmente a daqueles que a frequentam, fica por conta de cada um. Enxerguei, sim, a escuridão feito luz e seus contornos a propor recolhimento na Igreja de Santo Alexandre.

Belém oferece um tour religioso invejável tanto para crentes como para agnósticos. A igreja de Santo Alexandre é próxima à Catedral Metropolitana da Sé, que foi construída no Século XVIII, mas está toda bonitona, com fachada restaurada, conservando detalhes barrocos. Quero ver quem consegue visitar seu interior e não rezar. Pode até ser ateu.

Bem perto dali, há ainda a Igreja de Nossa Senhora do Carmo. Não há ímpio que resista: a beleza do seu interior foi projetada com a participação do famoso arquiteto bolonhês Antônio Landi. A cidade, aliás, é cheia de figurinhas carimbadas em sua arquitetura, inclusive em seu casario antigo. 

E, claro, tem religiões e igrejas pra todos os gostos. Desde grandes catedrais até pequenas congregações de bairro e igrejas em casas etc. não falta onde rezar. Uma informação interessa: a região Norte é a que tem o maior percentual de evangélicos do país: 36%. Até na Ilha do Combu há uma pequenina igreja frequentada por evangélicos.

Em Belém, há rezas e cerimônias religiosas para todos: católicos, evangélicos, espíritas, igrejas de matriz africana e espaço até para doutrinas esotéricas. Se depender disso, desconfio, o reino dos céus abrigará belenenses feito nuvens. Sei lá.  

   Na capital paraense, os católicos ainda são maioria: 55% dos belenenses. E eles, por exemplo, devem ter um rosário com mais de uma centena de igrejas. A mais famosa é a Basílica Santuário de Nossa Senhora de Nazaré ou simplesmente “Basílica” como os belenenses se referem a ela, grandioso santuário e atração turística a atrair milhares, crentes ou ateus. Sua beleza, com vitrais espetaculares e iluminação que tranquiliza, me deixou zonzo, emocionado, sem palavras. Há um órgão, em posição elevada na entrada principal, a enlevar musicalmente, com nada menos que 1,1 mil tubos, o imenso salão. 

A beleza, tanto externa quanto interna da Basílica, com vitrais espetaculares e iluminação que tranquiliza, me deixou zonzo, emocionado, sem palavras. Pouco antes da missa das 18, envolto pelo brilho de luzes no interior da igreja, confirmo a informação de que o “Círio de Nazaré” é a maior manifestação católica do Brasil e considerado Patrimônio Cultural da Humanidade. A peregrinação, de mais de 3 quilômetros, sempre no segundo domingo do mês de outubro, chega a reunir 2 milhões de fiéis em mostra de fé à Nossa Senhora de Nazaré. Saio do encanto da basílica mais zonzo do que quando entrei.

Não só nas crenças e nos ritos religiosos, mas em seu viver Belém é uma cidade ecumênica. No seu todo, inclusive nos (des) níveis sociais, suas dores e em seus escorregões humanos envoltos em mais de quatro séculos, a capital paranaense é uma espécie de soma. Indisposta a definições apressadas, com crenças, tradições, valores e costumes diversificados. Chega até a ter um viés meio caribenho, embora esteja a mais de cem quilômetros do mar, mas recompensada com a baia de Guajará e seu trio de rios. De ar molhado e quente até no inveno.

É um encontro cultural, no sentido antropológico mais amplo, de indígenas, negros e brancos, sobrando umas beiradas para árabes e japoneses, mistura que convive nas esquinas da América Central, vizinha de beiradas da Guiana, Suriname, Guiana Francesa, entre os mais próximos, e com outros povos também miscigenados. Ou seja, um pedaço de Brasil bem brasileiro.

 

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