7:38A água e o tempo

por Hayton Rocha

Sexta-feira passada, meu velho e querido amigo Biramar me perguntou, com palavras mais elegantes, se não havia uma crônica cochilando dentro daquela fotografia de quase duas décadas atrás que voltou a circular pelas redes sociais.

Na imagem, um jovem Lionel Messi dá banho em Lamine Yamal, então com poucos meses de vida. Não foi coisa de profeta, montagem de computador nem milagre produzido por inteligência artificial. A cena nasceu de uma campanha beneficente realizada pelo Unicef em parceria com o Barcelona. Messi foi sorteado entre os jogadores do clube. Yamal, entre as crianças participantes. O acaso, que escreve melhor do que qualquer um de nós, colocou os dois diante da mesma banheira.

Biramar acreditou que eu pudesse retirar alguma novidade daquela água antiga. Confesso que fiquei tentado. Mas já haviam espremido a fotografia até a última gota. Falaram em bênção, coincidência, destino e passagem de bastão. Só faltou alguém garantir que Messi, enquanto ensaboava o menino, percebera em seu pezinho esquerdo os sinais de um futuro craque.

Resolvi esperar a final da Copa do Mundo. No domingo, os dois estariam em lados opostos: Messi pela Argentina, Yamal pela Espanha. Talvez os deuses do futebol, sempre dispostos a corrigir os cronistas, acrescentassem alguma coisa à história.

Acrescentaram. Ao contrário do esperado, nenhum dos dois fez uma grande partida. Messi viveu sua atuação mais apagada no torneio. Não finalizou no alvo, não deu um passe decisivo a um companheiro e caminhou boa parte do jogo cercado por espanhóis que acompanhavam seus passos como perdigueiros bem treinados. Yamal também esteve abaixo de seus melhores dias. Correu, marcou, tentou, mas encontrou pela frente dois ou três adversários que lhe fecharam portas, janelas e, por precaução, até o basculante.

A Espanha venceu por 1 a 0 na prorrogação. Depois do apito final, enquanto os campeões corriam de um lado para outro, Yamal procurou Messi. Encontrou-o sentado no gramado, derrotado e sozinho naquela solidão que às vezes acontece diante de oitenta mil espectadores. O argentino se levantou e os dois se abraçaram.

Então a antiga imagem reapareceu. Ali estavam novamente o homem e o menino. Só que agora a água escorria dos olhos de Messi. A criança que ele banhara por acaso acabava de ajudá-lo a lavar a alma após uma derrota. O tempo, espécie de fotógrafo sem coração, invertera as posições.

Disseram que era uma passagem de bastão. Pode ser. Mas o futebol não é corrida de revezamento, e gênios como Messi não entregam o bastão a ninguém. Deixam-no caído no gramado, à espera de que algum menino tenha coragem de apanhá-lo.

Aos 39 anos, em sua sexta Copa, Messi talvez chorasse pelo provável adeus à seleção, pela lembrança da final perdida em 2014 no Brasil ou porque certas medalhas de prata pesam mais do que âncoras. Os torcedores o aplaudiram e cantaram seu nome. Algumas despedidas doem ainda mais quando vêm acompanhadas de um amor intenso.

Ou talvez chorasse por se lembrar do próprio começo. Aos dez anos, Messi foi diagnosticado com deficiência do hormônio do crescimento. O tratamento era caro demais para a família e para o Newell’s Old Boys. O Barcelona enxergou no pequeno argentino aquilo que os olhos comuns ainda não conseguiam ver, assumiu as despesas e o levou para a Espanha.

Mais tarde, Ronaldinho Gaúcho o acolheu no time principal, como quem protege uma chama pequena antes que ela aprenda a iluminar estádios.

Messi nasceu argentino, cresceu futebolisticamente espanhol e foi amparado por um brasileiro. Yamal nasceu na Espanha, filho de pai marroquino e mãe da Guiné Equatorial. Talvez o abraço entre os dois conte uma história muito maior do que aquela final.

Fronteiras são invenções humanas. Funcionam razoavelmente bem para desenhar mapas, carimbar passaportes e organizar Copas do Mundo. Quando servem para barrar pessoas, separar sangues e medir a dignidade de alguém pelo lugar onde nasceu, tornam-se cercas erguidas contra os ventos que varrem a História.

O futebol sabe disso. As seleções da Espanha, da França e da Inglaterra mostram em campo o que certos intolerantes se recusam a enxergar fora dele: algumas das mais belas realizações humanas nasceram da mistura. Quando povos, cores, sotaques e histórias diferentes vestem a mesma camisa, o preconceito pode até permanecer nas arquibancadas, mas perde de goleada dentro de campo.

Biramar tinha razão. Havia uma crônica cochilando naquela fotografia. Só não estava dentro da banheira. Estava esperando a água virar lágrima.

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