7:41Sorriso de resina

por Lea Oksenberg, no Vigília Comunica

Para quem vivia na Curitiba dos anos 1990, a rodoviária era o verdadeiro coração pulsante do Estado. Naquela época, andar de avião era luxo só. A vida real acontecia no sacolejar dos ônibus de viagem. Como legítima moradora da capital, Marieta acabou virando a “leva-e-traz” oficial da família e dos conhecidos. Se vinha parente do interior do Paraná para resolver coisas na cidade grande, Marieta ia buscar na rodoviária. Se era hora de voltar, lá ia ela despachá-los de volta para suas cidades.
Entre os mais diversos cheiros e o barulho dos freios da antiga rodoviária, o grande santuário da juventude de Marieta era uma portinha que ela amava: a loja de artigos de mágica e brincadeiras. Atrás daquele balcão de vidro, havia um universo de tesouros. Dedos de borracha, baralhos marcados — enfim, de tudo um pouco — e… ele. O sabor escatológico da molecagem: um perfeito, brilhante e indestrutível cocô de resina.
Aquela imagem ficou gravada na cabecinha de Marieta. Ela nunca comprou, mas o souvenir exótico nunca saiu do seu bestunto. O tempo passou, e ela virou uma secretária bilíngue competente, que trabalhava em uma imponente multinacional na capital.
Mas o destino é brincalhão. Naquela mesma empresa, brilhava Elsa, uma executiva de porte cujo principal talento, além de ter uma oratória impecável, era ter nojo de existir. Elsa tinha nojinho de pegar no trinco, nojinho do vento, nojinho de respirar o mesmo ar do corredor. Um poço de frescura!
Numa tarde qualquer, Marieta precisou voltar à velha rodoviária para despachar a sogra que ia viajar. E lá, na mesma vitrine empoeirada, a pequena estatueta piscou para ela. O cocô de resina ainda estava lá, esperando seu momento de glória.
— Ah, de hoje não passa — pensou Marieta, esfregando as mãos com aquele mesmo sorriso danado dos tempos de menina. Comprou o artefato.
No dia seguinte, o cenário do crime foi o banheiro do andar executivo — um espaço e tanto, todo de mármore e com cheiro de eucalipto. Marieta entrou de fininho, posicionou a obra de arte estrategicamente no chão, ao lado do vaso, e saiu.
Não demorou dez minutos.
Elsa, a executiva cheia de nojos, entrou no banheiro. O que se ouviu a seguir foi um berro agudo que parecia vir do fundo da alma, ecoando pelo corredor de carpete da multinacional. Parecia que Elsa tinha dado de cara com uma assombração.
Do lado de fora, Marieta colou o ouvido na porta de madeira, deliciando-se com o pânico alheio. Ouvindo o desespero de Elsa, que gritava horrorizada sem conseguir sair do lugar, Marieta bateu na porta e gritou:
— Elsa! Oi, oi, oi! Sou eu, a Marieta! Tá tudo bem… Isso aí é resina, boba!
Lá de dentro, entre soluços de nojo, a voz trêmula de Elsa alcançou o corredor:
— Como assim, resina, Marieta?! O que é isso?!
Marieta, com a maior naturalidade do mundo, gritou de volta para a porta trancada:
— É resina! Igualzinho ao meu dente. Meu dente é de resina! É a mesma coisa!
A porta do banheiro se destrancou num estrondo. Elsa saiu com os olhos arregalados, alternando entre a fúria de quem queria matar a secretária e o choque da revelação odonto-escatológica. Ela encarou Marieta, que exibia um sorriso largo, orgulhosa de sua própria dentição.
A tensão no corredor durou três segundos. Elsa respirou fundo, olhou para os próprios dedos impecáveis, mirou a cara de pau de Marieta e, de repente, desabou. Mas não de nojo: de rir. Uma gargalhada alta, libertadora, que ecoou pelas paredes sóbrias da multinacional.
Entre lágrimas de riso, Elsa avançou e deu um forte e sincero abraço em Marieta. Afinal, diante da imensidão da vida, nem tudo é nojento. Ao menos o dente de Marieta não era.

Segura teu santo, seu moço, teu santo é de barro
Que sarro, dei volta no mundo e voltei pra ficar
Eu vim lá do fundo do poço, não posso dar mole pra não refundar
Quem marca bobeira engole poeira e rasteira até pode levar
(Malandro sou eu – Arlindo Cruz e Sombrinha)

Compartilhe

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.