por Lea Oksenberg, no Vigília Comunica
Militância raiz tem dessas coisas. A gente arruma a mala cheia de cartilhas, panfletos, ideais e disposição, mas nunca sabe exatamente onde vai deitar a cabeça. Como diria o velho cancioneiro das estradas, “caminhando e cantando e seguindo a canção”. Marlene, socióloga e defensora ferrenha da saúde pública, desembarcou naquela cidadezinha do interior do Paraná — daquelas mega pequenas. Sua missão era nobre: dar um curso de formação para a comunidade.
Para quem tem horror a germes e bactérias, passar a noite na casa de terceiros é um gigantesco exercício de desapego. Marlene inspecionava lençóis com os olhos, lavava as mãos até quase gastar a digital e sorria amarelo, tentando focar no bem maior da saúde coletiva.
A acolhida foi impecável. A anfitriã, uma senhora simpaticíssima, acomodou Marlene e os outros companheiros de viagem em sua casa, que ficava no segundo andar de um prédio bem ajeitado no centro. A noite passou sem sobressaltos.
No dia seguinte, o amanhecer trouxe um espetáculo. A mesa do café da manhã parecia saída de uma novela: uma toalha impecavelmente branca, bolo de fubá fumegando, torta super recheada, geleia caseira, café passado na hora, pão sovado… Um banquete de devorar com os olhos. Marlene, esquecendo por um momento suas neuroses com bactérias invisíveis, entregou-se aos prazeres da gula. Estava na segunda fatia de bolo, elogiando a fofura da massa, quando a anfitriã começou a recolher o avental.
Com o sorriso mais doce do mundo e a naturalidade de quem vai apenas fechar a janela porque começou a garoar, a dona da casa soltou a bomba:
— Gente, vocês me desculpem, eu tenho que descer agora… Tem um defunto me esperando lá embaixo que eu preciso maquiar.
O tempo parou. O quitute de fubá, que até um segundo atrás era a oitava maravilha do mundo, transformou-se instantaneamente em uma bola de cimento na boca de Marlene. Os olhares se cruzaram na mesa em um pânico mudo.
Só então, como quem junta as peças de um quebra-cabeça macabro, Marlene processou a estrutura da casa. O cheirinho de café, que parecia tão legal, de repente ganhou notas imaginárias de formol. Eles estavam hospedados, literalmente, no teto de uma funerária. Raul Seixas já dizia: “Eu sou o início, o fim e o meio… Eu sou a vida, eu sou a morte”. E as mãos da doce senhora, que com tanto carinho haviam sovado o pão e batido o bolo minutos antes, eram as mesmas que, logo em seguida, estariam aplicando ‘massa corrida’ e pó compacto em quem já tinha partido dessa pra melhor.
Dizem que Marlene engoliu o pedaço de bolo por pura educação e respeito à hospitalidade, mas o estômago dela fez greve geral. A militância pela saúde pública, afinal, exige sacrifícios e um estômago de ferro que nenhum manual é capaz de prever. Quando eu morrer
Não quero choro nem vela
Quero uma fita amarela
Gravada com o nome dela
(Fita amarela – Noel Rosa)