5:49Infernos

de Carlos Castelo

A humanidade nunca conseguiu padronizar o destino do pecador depois da morte. Cada civilização criou seu próprio resort espiritual, com regras de entrada tão confusas quanto edital de concurso público.

Na Mesopotâmia, por exemplo, não havia frescura moral. Você podia ser um santo, um canalha ou aquele vizinho que escuta música alta no domingo à noite: todo mundo ia para o mesmo lugar. Era uma espécie de subsolo eterno, empoeirado, sem luz. Pior: sem qualquer expectativa de melhora. O pós-vida mesopotâmico era democrático: igualmente péssimo para todos. Não havia julgamento, nem advogado, nem habeas-corpus. Era morrer e aceitar que tudo piorou.

Com o tempo, a humanidade começou a achar essa falta de critério desmotivadora. Afinal, qual o incentivo para ser uma pessoa decente se o destino é um porão coletivo? Entra em cena o Zoroastrismo, uma espécie de consultoria organizacional do além. De repente, surgem conceitos como julgamento individual, recompensa e punição. Finalmente alguém decidiu que a eternidade precisava de um mínimo de meritocracia.

No sistema zoroastrista, o falecido precisava atravessar a Ponte do Julgamento. Para os justos, ela era larga e tranquila, quase um calçadão à beira-mar. Para os pecadores, no entanto, virava uma linha de varal em dia de ventania. A pessoa não caía por falta de aviso, mas pela ausência de equilíbrio moral mesmo. Do outro lado, havia destinos distintos: um lugar agradável para os bons e um ambiente menos convidativo para os maus: algo com um callinterminável com uma pessoa dizendo “vou só compartilhar mais uma vez a tela”.

 Essa ideia sofisticada de eternidade acabou influenciando tradições posteriores. O judaísmo tardio começou a flertar com a noção de julgamento, e o cristianismo pegou o pacote completo: céu, inferno e até uma espécie de sala de espera espiritual, o purgatório. Aqui, o pecador ganhou algo que nunca teve antes: prazo. Não era mais uma condenação definitiva, mas um estágio corretivo, como se Deus tivesse inventado a recuperação escolar para almas.

O inferno cristão, como era de se esperar, caprichou na ambientação: fogo, sofrimento e uma sensação permanente de ter escolhido a fila errada no supermercado. Já o céu investiu no oposto: paz, harmonia e música ambiente que ninguém sabe bem de onde vem. O importante era que, afinal, o comportamento em vida tinha consequências claras. Ainda que ninguém concordasse com os critérios.

No fim das contas, cada cultura projetou no além aquilo que conhecia em vida: burocracia, desigualdade, esperança e um certo senso de humor involuntário. Porque passar a eternidade atravessando pontes estreitas ou esperando julgamento não deixa de ser uma versão metafísica de resolver pendências no cartório.

Já no sincretismo religioso brasileiro, após a morte, o pecador fica morando aqui mesmo. É o pior dos castigos.

(Publicado no Brasil 247)

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