por Lea Oksenberg, no Vigília Comunica
Crescer é um processo complicado. De uma hora para a outra, o pescoço estica, as pernas ganham vida própria e o sujeito parece não saber direito o que fazer com os próprios braços. Totalmente desengonçado. A voz, coitada, começa grossa, descamba para um agudo de taquara rachada e termina num sussurro tímido, tudo na mesma frase. Nascem pelos onde antes era um deserto, as camisas encolhem no armário em questão de semanas e, de repente, no meio desse cenário em plena mutação, elas chegam para assumir o protagonismo: as espinhas!
Mas não são apenas espinhas. É um exército delas, uma ocupação territorial na cara, nas costas, nos braços, em tudo que é canto, guardando espaço até para um ou outro furúnculo estratégico surgir e testar a paciência da família.
Aí começa a romaria. Primeiro, a gente tenta curar na diplomacia: limpeza de pele. O coitado vai, sofre na maca, espreme daqui, aperta dali, sai com a cara parecendo um morango maduro e… nada. Não adianta. Na semana seguinte, o mapa geográfico do rosto segue rigorosamente na mesma.
Partimos para a artilharia pesada: a dermatologista.
A médica olha, analisa, prescreve a primeira loção mágica e diz: “Volte daqui a um mês”. O garoto toma, passa, besunta-se inteiro, o mês vira e a pele só piora. Nova consulta. A médica sobe o tom: “Vamos de antibiótico”. Mais trinta dias, mais promessas, mais comprimidos e as espinhas lá, firmes, fortes e reluzentes.
É aí que a ciência resolve pedir reforços. A médica puxa o bloco e prescreve uma renca de quinhentos exames de sangue para ver se o organismo aguenta o tranco de um tratamento mais drástico. O menino doa um balde de sangue. Primeira leva: tudo perfeito, uma saúde de ferro. Três meses depois, lá vamos nós de novo, outra renca de guias, mais agulhadas. Só que dessa vez o laboratório decide pregar uma peça. O resultado sai e o tal do triglicerídeos foi parar na estratosfera. Desespero geral. Corta o carboidrato, corta o hambúrguer, enfim, corta tudo que ele gosta!
Mais três meses de suspense, nova bateria de exames e, quando sai o papel, o triglicerídeos despencou. Voltou para o nível de um monge budista, perfeitamente normal.
Na consulta, a dermatologista ajusta os óculos, estuda os gráficos, compara os exames e, intrigada com aquele milagre da biologia, pergunta com os olhos arregalados:
— Mas o que foi que você fez? Tomou algum remédio novo? Mudou radicalmente a dieta?
E o adolescente, com aquela voz que ainda balança entre o grave e o agudo, dá de ombros com a maior naturalidade do mundo:
— Não. Fé. Muita fé.
Contra a ciência e os hormônios, às vezes só a teologia da adolescência explica.
Andar com fé eu vou / Que a fé não costuma faiá (Andar com fé — Gilberto Gil)