por Carlos Castelo
O RH da facção funcionava numa sala sem janela, com um ventilador que fazia um barulhão e um cartaz motivacional pregado torto na parede: “Aqui, nós faz acontecer.” Embaixo, alguém tinha completado com caneta: “inda mais nas tocaia.”
Quem comandava o setor era Uéslei, gerente de Recursos Humanos e Desenvolvimento Criminal de Talentos. Usava regatas cavadas, colares dourados e um coldre discreto, combinação que lhe dava o aspecto de um contador meio ameaçador.
Uéslei levava o trabalho a sério. A facção podia negociar drogas, armas e influência política, mas o verdadeiro desafio era lidar com pessoas. Pessoas faltavam. Atrasavam. Sumiam misteriosamente no horário de expediente. Havia muito turnover, às vezes literal.
Naquela segunda-feira ele conduzia entrevistas de desligamento.
— Fala, Claudinei, por que tá saindo da organização?
— Fui sequestrado. Pela concorrência, mano.
— Entendo, irmãozão. Tu classificaria a experiência aqui como satisfatória?
— Marromeno. Tomei dois pipoco.
Uéslei anotou: “colaborador demonstra dificuldade em lidar com feedback.”
O grande problema da facção moderna é profissionalizar a gestão. Já não basta entrar armado e tatuado. O mercado exige novas competências. Há treinamento de abordagem ao cliente, curso de inteligência emocional durante interrogatórios e até workshop de comunicação não violenta, embora o nome tivesse gerado resistência.
— Comunicação não violenta? — reclamou um veterano. — Então, agora vou ameaçar como, maluco?
Uéslei explicava pacientemente:
— A ideia é escutar o sequestrado de forma empática.
— Mas o cara tá amarrado, pô.
— Justamente. Ele já se encontra vulnerável para compartilhar sentimentos.
A facção também investia em diversidade. O chefe acreditava numa equipe plural, capaz de representar diferentes regiões do crime organizado. Tinham contratado um hacker vegano, uma especialista em golpes de PIX formada em administração e um rapaz de teatro responsável pelos disfarces nas operações.
O teatro, aliás, causara atritos.
— Não posso trabalhar num ambiente tóxico — dissera o ator depois de uma discussão no almoxarifado de munição.
Uéslei respirou fundo. RH era mediação permanente. Numa semana resolvia conflito entre os vapores; na outra, negociava vale-transporte para motoqueiro de fuga.
Na terça-feira houve avaliação de desempenho.
— Vamos falar de metas, Sandrão. Tu sequestrou apenas três empresários no trimestre.
— O mercado deu uma esfriada, irmão.
— Mesmo assim precisamos pensar em proatividade.
— Fiquei preso duas semanas.
— O importante é vestir a camisa da empresa.
— Mas eu tava sem camisa quando entrei na tranca…
Uéslei ignorou.
Toda corporação tem suas modas administrativas. A facção entrou numa fase startup. O dono da boca apareceu falando em inovação disruptiva.
— Precisamos sair da zona de conforto do crime tradicional.
Criaram então um aplicativo chamado Kidnapfy, com o slogan: “Você agenda, nós leva.”
Fracassou porque os clientes davam nota baixa no atendimento.
Outra iniciativa foi o programa de bem-estar. A direção percebeu aumento no estresse ocupacional depois de tantas operações policiais. Contrataram uma terapeuta holística para sessões de respiração.
Durante a primeira dinâmica, a polícia invadiu o galpão.
— Inspira… expira… gritava a terapeuta.
— Mão na cabeça, corja! — berravam os agentes.
No fim do expediente, Uéslei organizava planilhas. Gostava de ordem nas tabelas. Pensava que, no fundo, toda organização humana acabava igual: gente reclamando do gestor, fingindo entusiasmo em reunião, e tentando emendar feriado.
Só que na facção de Uéslei, o colaborador não saía da empresa. Desaparecia do quadro.