por Lea Oksenberg, no Vigília Comunica
A vida inteira ela esperou pelo príncipe que viria montado num cavalo branco. O problema é que o tempo passa, os mitos desbotam e, quando o bicho finalmente apontou na esquina, a realidade se impôs com o peso de um elefante. Do cavalo desceu Gabriel. Ele não tinha armadura, não tinha modos e tinha um cheiro, eca, que denunciava a recusa dele de encarar um chuveiro há algum tempo. Mas dividia os corredores da faculdade de Direito com Beatriz, e isso, na cabeça da moça, parecia o suficiente para lhe dar o aval necessário para superar os defeitos e levá-lo para o reino dos namorados.
A mãe de Beatriz assistia a tudo da poltrona, trocando olhares mudos com o neto pequeno. O garoto, com a inocência astuta da infância, já tinha sacado que aquele príncipe estava mais para ogro.
A grande surpresa que Gabriel preparou foi numa tarde de sábado. Do outro lado da rua ficava uma das panificadoras do bairro, exalando aquele cheiro de pão quente que costuma unir as pessoas. Gabriel cruzou a via e voltou trazendo um banquete particular: uma baguete francesa enorme, daquelas de carregar debaixo do braço, recheada de calabresa até as bordas, e uma garrafa pet de dois litros de Coca-Cola.
Voltou ao apartamento da quase futura sogra, sentou-se bem na ponta da mesa da sala. Não olhou para os lados. Não ofereceu um pedaço ao menino que o observava, não fez o gesto cortês de estender o copo à dona da casa, nem mesmo à própria Beatriz. Rompeu o plástico, abriu o refrigerante com um chiado alto e começou a comer. Sozinho. Uma ilha de egoísmo cercada por três pares de olhos perplexos.
Para aquela família, o pão não fazia falta. A geladeira estava cheia, a dignidade estava intacta e eles bem podiam atravessar a rua e comprar dez daquelas baguetes se quisessem. Mas a cena deixou um amargor que refrigerante nenhum conseguiria limpar. Enquanto Gabriel mastigava sua soberba disfarçada de fome, a mãe de Beatriz pensava no perigo daquela cena. Se ele era capaz de devorar o mundo sozinho ali, onde a fartura tornava o gesto apenas patético, o que faria ele se a vida os levasse para a escassez? A falta de educação, afinal, é um luxo de quem tem; quando encontra a miséria, ela vira crueldade.
A gente não quer só comida / A gente quer comida, diversão e arte…(Comida –
Arnaldo Antunes, Marcelo Fromer e Sérgio Britto)