de Carlos Castelo
§ A CBF acaba de provar que, no Brasil, a derrota não é um revés: é um plano de carreira. Carlo Ancelotti caiu nas oitavas e, em vez de receber uma mala, recebeu um cofre. Vinte por cento de aumento, vínculo até 2030 e seis milhões por mês (quantia suficiente para comprar silêncio, paciência e talvez um lateral-direito).
É uma filosofia administrativa comovente. Enquanto o trabalhador brasileiro precisa vencer o sono, o ônibus e o chefe para justificar um reajuste de vale-refeição, o técnico da Seleção precisa apenas ser eliminado precocemente da Copa. O fracasso, quando fala italiano, deixa de feder a vexame e passa a cheirar a projeto.
A CBF descobriu o luxo de chamar insucesso de continuidade. O torcedor olha para o contrato e logo entende: no futebol brasileiro, quem perde é o jogo; quem vence é o contracheque.
Ancelotti talvez nem tenha culpa. Culpa tem o país que transformou a bola em religião, a derrota em liturgia e o aumento salarial em sacramento.
No altar da cartolagem, até eliminação vira bênção. E o dízimo, claro, é pago ao santo derrotado