6:04 O cavalheiro e o pântano

por Carlos Castelo

Ancelotti é um cavalheiro. Elegante, educadíssimo, paciente. Um homem capaz de perder para a Noruega e ainda cumprimentar Haaland como quem agradece ao garçom pelo café. Mas, neste dia em que o Brasil saiu da Copa pela porta lateral, Carlo foi menos técnico da Seleção do que zelador de um condomínio em chamas.

A Noruega, um país que o brasileiro médio só lembrava por causa do bacalhau (e de um atacante construído em laboratório por vikings), fez aquilo que o Brasil não consegue há décadas: jogou sabendo quem era. Nosso selecionado, em compensação, entrou em campo como uma ata de reunião da CBF: confuso, cheio de nomes importantes e sem nenhuma conclusão prática.

Carlo chegou ao Brasil com sobrancelha de cardeal e a calma de quem já sobreviveu a Cristiano Ronaldo, Ibrahimović e Florentino Pérez. Portanto era imune ao absurdo. Mas subestimou o produto nacional. Aqui, o nonsense não é acidente: é organograma.

Sua função, descobrimos tarde demais, não era apenas montar um time. Era sorrir para a câmera, abençoar o release, chamar desespero de “processo”, improviso de “variação tática” e convocação esquisita de “observação ampla”. A Seleção virou uma mistura de laboratório, vitrine e missa de sétimo dia.

 Contra a Noruega, emergiu a verdade. O Brasil não foi eliminado apenas por Haaland ou por Ødegaard. Foi eliminado por si mesmo.

A Noruega, com a brutal simplicidade dos nórdicos, apenas correu, marcou, esperou, atacou. Sem samba, sem firula metafísica, sem comercial de BET antes do hino. Somente futebol.

O time de Carlo, por sua vez, jogou como quem perdeu o mapa. Havia talento, claro. Sempre há. Produzimos talentos como repartição produz carimbo. O problema é transformar talento em time, time em ideia, e ideia em coragem. Isso já exige uma competência que não cabe num release da CBF.

E o mais cruel é que Ancelotti, por educação ou prudência, aceitou o teatro até o fim. Não esperneou. Não quebrou mesa. Não denunciou o circo. Apenas ergueu a sobrancelha, como quem contempla a queda de Roma. Talvez fosse o entendimento tardio de que, na Seleção, o técnico é menos comandante e mais maître: não escolhe o cardápio, apenas administra a confusão das mesas e tenta impedir que a cozinha pegue fogo antes da sobremesa.

Não conseguiu. O restaurante inteiro explodiu muito antes do prato principal.

No final, a CBF realizou sua especialidade: pegou um dos preparadores mais vitoriosos do futebol contemporâneo e o converteu em personagem de repartição: um Michelangelo contratado para pintar faixa de pedestre.

  E assim saímos da Copa. Não exatamente derrotados pela Noruega, mas desmascarados por ela. Os bárbaros só fizeram o serviço sujo com a limpeza.

Voltamos para casa mais cedo, como de costume. A diferença é que, desta vez, não dá nem para culpar o azar. Até ele, coitado, também deve estar pedindo demissão da CBF.

(Publicado no Estadão)

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