9:55Moro no país dos Ratinhos

por Felippe Anibal, narevista piauí

As gafes, as rachadinhas, os aliados duvidosos e os duzentos prefeitos do PSD que assombram a candidatura do ex-juiz ao governo do Paraná

Depois do pronunciamento de alguns aliados, como o ex-procurador Deltan Dallagnol e o deputado federal Filipe Barros, Sérgio Moro assumiu o microfone. Mantendo o padrão de seus discursos de pré-campanha, atacou o PT, pregou contra a corrupção e martelou a importância da segurança pública. Moro é pré-candidato ao governo do Paraná. “Eu quero convocar cada um de vocês, todos, para lutar, lutar e lutar pelo nosso estado e pelo Brasil”, disse, encerrando a fala em tom triunfal. Foi aplaudido de pé pelos apoiadores que, naquela noite de terça-feira, 23 de junho, lotavam o Porto Santo – um salão de eventos com capacidade para 1.320 pessoas, em Paranaguá, litoral do Paraná.

Ao fim do encontro, Moro foi abordado por uma repórter. Antes de formular a pergunta, ela fez um breve preâmbulo, mencionando que o Porto de Paranaguá é o segundo maior do Brasil, e jogou a bola para o senador: “O que o senhor tem a dizer do nosso porto em relação aos parnanguaras?” Moro ficou confuso. “Parnanguaras, a população indígena, lá?” E prosseguiu, antes de ouvir a resposta: “Ora, tem que preservar os direitos da população indígena, mas preservar esses direitos não deve ser empecilho também ao crescimento econômico.”

Ávido leitor de biografias, Moro acumulou mais uma gafe para a sua. Parnanguaras não é o nome de nenhuma tribo, e sim o gentílico de quem nasce em Paranaguá. O deslize repercutiu, sobretudo devido à importância do município, considerado o berço do Paraná. Foi fundado em 1648 e hoje é o 13ª mais populoso do estado, com cerca de 150 mil habitantes. Graças ao porto, exerce papel importante na infraestrutura logística da região.

Adversários caíram em cima. Pré-candidatos ao governo e ao Senado, respectivamente, o deputado estadual Requião Filho (PDT) e a deputada federal Gleisi Hoffmann (PT) gravaram vídeos ironizando Moro. Requião Filho disse que ele “não conhece o estado que quer governar”. O ex-juiz não teve alternativa senão publicar um vídeo pedindo desculpas. “Meu caneco! Olha só, dia corrido, muito barulho. Ouvi uma coisa e respondi outra”, disse. “Meu todo respeito a nossa cidade-mãe, histórica do Paraná, Paranaguá.”

Segundo integrantes da campanha ouvidos pela piauí, o vídeo e a expressão “meu caneco” – usada pelos paranaenses para demonstrar espanto ou surpresa – foram sugestão do marqueteiro Marcelo Cattani, um veterano que tem no currículo campanhas de Beto Richa (ex-prefeito de Curitiba e ex-governador do Paraná), Rafael Greca (ex-prefeito de Curitiba) e Cida Borghetti (ex-governadora). Em 2022, foi Cattani quem cuidou da campanha de Moro para o Senado, cobrando 435 mil reais pelo serviço. Acabou conquistando a confiança do ex-juiz, que se elegeu com quase 2 milhões de votos. Agora terá uma missão mais trabalhosa.

Candidatos a governador se expõem mais do que candidatos ao Senado. Ocupam o centro da eleição estadual, precisam de mais votos, participam de mais debates, são mais cobrados. E se em 2022 era um neófito, hoje Moro é um senador com quatro anos de bagagem. Tem, portanto, uma vidraça maior. No Parlamento, até aqui, teve atuação apagada. Aprovou, nesses quatro anos, um único projeto de lei, que criminaliza o planejamento de ataques a agentes públicos envolvidos no combate ao crime. Dos três senadores paranaenses, foi quem mais gastou dinheiro de cota parlamentar desde 2023 – e, ao mesmo tempo, quem menos destinou emendas ao estado, como mostrou a coluna de Lauro Jardim, no jornal O Globo.

O que mais preocupa a campanha não é esse histórico. É o fato de que Moro, que circula na política há apenas sete anos depois de 22 anos na magistratura, ainda não é propriamente um craque da articulação política, um agitador das massas, um gestor experiente ou, menos ainda, um ás da retórica. Dias antes da gafe parnaguara, em outro evento da pré-campanha, acusou o governo Lula de ser “neliente” – e não leniente – com a criminalidade. O repertório de pequenos erros, como o célebre “conje” (querendo dizer cônjuge, anos atrás), alimenta e diverte as campanhas adversárias. Mas está longe de ser o único obstáculo no caminho.

Moro já havia flertado, em 2022, com a possibilidade de se candidatar ao governo do Paraná, num vaivém que deixou aliados atônitos. Primeiro, o ex-juiz se anunciou candidato a presidente, plano que rapidamente murchou. Depois tentou alterar seu domicílio eleitoral para São Paulo, onde pretendia se lançar ao Senado ou à Câmara junto de sua mulher, Rosângela Moro. Ela conseguiu; ele foi barrado e teve de se contentar com o Paraná. A ideia de virar governador foi embarreirada por seu partido na época, o União Brasil, diante do evidente favoritismo de Ratinho Jr (PSD), que disputava a reeleição. Restou a Moro o Senado.

Desta vez, graças a uma sequência inesperada de eventos, o ex-juiz está mais bem posicionado na disputa pelo governo. Desde o ano passado, lidera as pesquisas. Nos levantamentos feitos pelo Instituto Paraná Pesquisas em maio e em julho de 2025, aparecia com 43,9% e 43,8% das intenções de voto, respectivamente, no primeiro turno. O ex-juiz é popular sobretudo no interior do estado, entre homens, tanto jovens quanto idosos. Mais recentemente, o instituto Vox Brasil apurou que Moro tem entre 39,6% e 49,2% das intenções de voto, a depender de alguns fatores, como o apoio da família Bolsonaro e a participação ou não, no pleito, de Rafael Greca, ex-prefeito de Curitiba (MDB) e atual secretário de Desenvolvimento Sustentável no governo Ratinho Jr.

As pesquisas deixam Moro numa situação confortável, mas o caminho até aqui foi tortuoso. Como em 2022, o ex-juiz teve dificuldades para viabilizar a candidatura pelo União Brasil. O partido, desde o ano passado, forma uma federação com o PP – a chamada União Progressista. Se convencer um partido já era difícil, convencer dois ficou ainda mais. No Paraná, o PP de Ciro Nogueira é fechado com Ratinho Jr. E o União Brasil, um partido desde sempre rachado, não moveu montanhas para convencer os novos companheiros de federação.

Não ajudou, além disso, a fama de Moro como uma figura centralizadora e intransigente. Parlamentares que já se sentaram à mesa com ele o descrevem como um político incapaz de criar consensos, como quem quer fazer prevalecer a própria posição a todo custo. Há também os fatos do passado que não deixaram uma boa imagem. Em 2022, o ex-juiz trocou o União Brasil pelo Podemos de uma hora para outra, sem avisar aliados. A presidente do partido, Renata Abreu, disse que ficou sabendo da desfiliação de Moro pela imprensa.

Ricardo Barros, deputado federal veterano e um dos principais nomes do PP no Paraná, diz que a federação barrou a candidatura de Moro porque o ex-juiz não foi capaz de se articular devidamente. “Ele não dividiu a expectativa de poder com os demais partidos e os demais líderes políticos. Nunca transferiu ao grupo a impressão de que todos governariam”. E arrisca uma explicação: “O Moro tem características de juiz. E o juiz é uma figura solitária, ele decide sozinho o que vai acontecer. Então ele tinha uma dificuldade, realmente, de fazer a interlocução, de falar coisas que interessassem ao interlocutor.”

“Moro veio para a política, mas continua com a capa de juiz”, concorda o deputado estadual Luiz Claudio Romanelli (PSD). “Ele guarda uma distância das pessoas, tem uma presunção de pensar que as coisas são do jeito que ele acha que devem ser. E eu vejo que ele tem uma grande dificuldade de dialogar, que é algo que a política exige. O processo democrático é um processo de diálogo”, diz Romanelli. “Ele não quer constituir parcerias, quer adesões.”

Até março, parecia que Moro não conseguiria levar a candidatura adiante. A situação só mudou por obra de Ratinho Jr., que, incensado por Gilberto Kassab, se lançou pré-candidato à Presidência pelo PSD. Com isso, deixou alarmado Flávio Bolsonaro, seu potencial concorrente, que contava com Ratinho para lhe oferecer um palanque no Paraná. O PL não perdeu tempo: por intermédio do senador Rogério Marinho (PL), convidou Moro para se filiar ao partido e se candidatar ao governo. Mais uma vez, o ex-juiz abraçou o bolsonarismo sem hesitar. (De tão à vontade no meio, já foi até visitar Filipe Martins na prisão. O ex-assessor de Bolsonaro foi condenado por participação na tentativa de golpe de Estado.)

Ratinho Jr., porém, deu um passo em falso. No final de março, anunciou que estava desistindo da candidatura presidencial – nos bastidores, especula-se que a decisão tenha a ver com os repasses milionários do Banco Master ao Grupo Massa, da família do governador. A essa altura, porém, Moro já estava de mala e cuia no PL. Tornou-se, com isso, uma pedra no sapato de Ratinho Jr., que tenta emplacar como seu sucessor o deputado estadual Sandro Alex (PSD). Na pesquisa mais recente, divulgada em 15 de junho pelo IRG Pesquisas, o escolhido de Ratinho aparecia em terceiro lugar, com menos da metade das intenções de voto de Moro.

Com a direita dividida, a eleição no Paraná caminha para ser a mais polarizada dos últimos anos. Tanto em 2018 quanto em 2022, Ratinho Jr. não escondeu sua inclinação à direita, mas evitou aderir ao antipetismo visceral. Quando Lula viajou ao Paraná em março de 2022, por exemplo, o governador mandou avisar que não era seu inimigo nem seu adversário. O PT, afinal, nunca governou o estado. Mas, neste ano, com a direita rachada, Moro e Sandro Alex disputarão o voto bolsonarista, o que deve trazer a polarização nacional para o centro do debate paranaense.

O ex-juiz, apostando no recall da Lava Jato, tem feito do antipetismo o mote de sua campanha, associando o governo Lula à corrupção, como sempre fez. Mas, hoje, um movimento arriscado para quem, dia sim, dia também, sobe em palanques ao lado de um enrolado Flávio Bolsonaro. No primeiro evento oficial de sua pré-campanha, em 29 de maio, Moro foi questionado sobre a relação de Flávio com Daniel Vorcaro e o financiamento do filme Dark horse – um fenômeno de 61 milhões de reais. Incomodado com as perguntas, o ex-juiz desconversou. “Nós estamos juntos combatendo o governo mais corrupto da história do país, que fez ao Brasil o Mensalão, trouxe o Petrolão, é o responsável pelo escândalo do Banco Master e da roubalheira do INSS.”

O problema não é só Flávio. Mais recentemente, em 22 de junho, o Ministério Público do Paraná (MPPR) denunciou quatro pessoas acusadas de participar de um esquema de rachadinha no gabinete de Ricardo Arruda (PL), deputado estadual aliado do ex-juiz. Entre os denunciados, estão Patrícia Miranda Arruda Nunes, companheira de Arruda, e Lucas Dorini Sabbato, que ocupou um cargo comissionado no gabinete de Moro no Senado. A investigação já havia resultado numa denúncia contra Arruda, em 2024, pelos crimes de concussão e lavagem de dinheiro. No evento de lançamento da pré-candidatura de Moro – o mesmo em que estava Flávio Bolsonaro, e em que não se tocou no assunto Master –, Arruda estava no palanque, vestindo uniforme da Seleção e jaqueta preta.

Houve ainda um outro episódio, anedótico. Em 22 de maio, Moro gravou um vídeo para anunciar a filiação ao PL de um novo aliado: Aldalto Pezzotti Bernardino, vice-prefeito de Doutor Camargo – município de cerca de 6,5 mil habitantes, vizinho à cidade natal do ex-juiz, Maringá. O problema é que, meses antes, Bernardino tinha sido preso em uma blitz da Polícia Militar por conduzir uma motocicleta com identificação adulterada e com registro de furto. Depois que a filiação foi anunciada, a coluna de Mônica Bergamo, na Folha de S.Paulo, indagou Moro sobre o histórico do novo aliado. Ele respondeu que não conhecia Bernardino nem tinha informações sobre “o incidente” com a polícia. Mas garantiu que o PL cancelaria a filiação. (A piauí não conseguiu confirmar com o PL se Bernardino foi realmente desfiliado. Até a manhã desta segunda-feira, 6 de julho, ele não havia apagado o vídeo com Moro de seu Instagram).

Embora tenha parecido uma desculpa esfarrapada, não seria de se espantar que Moro realmente não conhecesse Bernardino. Isso porque o ex-juiz, embora lidera as pesquisas, não conta com uma grande coalizão de partidos. O único que se juntou ao PL, até agora, foi o Novo – e, com isso, Moro tem que aceitar qualquer apoio que lhe seja oferecido, inclusive de vice-prefeitos de pequenas cidades do interior. Para tentar melhorar a situação, o deputado federal Filipe Barros (PL) – pré-candidato ao Senado – foi escalado para fazer a interlocução com outros partidos e prefeitos paranaenses.

Os frutos dessa articulação, até agora, foram tímidos. Na última semana, a campanha de Moro comemorou ter recebido os apoios do General Silva Luna (prefeito de Foz do Iguaçu), de Pedro Coelho (prefeito de Goioerê) e de Cesar Silvestri Filho (ex-prefeito de Guarapuava). As três cidades concentram cerca de 4% da população do Paraná. Enquanto isso, o PSD de Ratinho Jr. e Sandro Alex diz ter o apoio de 201 prefeitos, de um total de 399. Um integrante da campanha de Moro, que pediu para não ser identificado, diz que a situação não é tão ruim. “Tem uns cem prefeitos esperando convênios do governo serem cumpridos (ou descumpridos) agora no começo de julho, para definir quem apoiar.”

Moro não respondeu aos pedidos de entrevista da piauí. Seus aliados Deltan Dallagnol e Filipe Barros também não responderam aos contatos da revista.

Parlamentares do PSD já deram início à artilharia de campanha, tentando desidratar as intenções de voto no ex-juiz. “Atenção, prefeitos, se Moro for governador, compromissos não serão cumpridos”, alertou o deputado estadual Romanelli em uma sessão recente da Assembleia Legislativa. Em entrevista à piauí, não foi menos incisivo. Criticou o fato de que os eventos da pré-campanha de Moro, até agora, foram quase todos realizados em salões fechados, com grades e divisórias separando os políticos do público. “São eventos sem povo.” Em um desses encontros, em Ponta Grossa, os alto-falantes tocaram a música Eu te amo, meu Brasil, da dupla Don & Ravel, associada à ditadura militar. “Ele tem um viés autoritário, uma política de pensamento único. Eu entendo que na democracia não cabe isso”, prossegue Romanelli.

Caso se eleja, Moro terá que dialogar com muitos de seus antigos adversários. Na atual legislatura, PL e Novo somam 14 cadeiras na Assembleia Legislativa do Paraná – o equivalente a um quarto do total. Se o número se mantiver na eleição deste ano, o ex-juiz se verá obrigado a negociar a adesão de outros partidos para conseguir governar o estado. “Ao término de cada eleição, é preciso compor o que nós chamamos de base de governo, que não tem a ver necessariamente com o apoio eleitoral. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa”, diz Ricardo Barros, o veterano do PP. “Qualquer um que ganhar o governo não fará mais que 16 ou 17 deputados. Então terá que compor maioria.”

O presidente da Assembleia, Alexandre Curi (PSD) espera que, caso Moro seja eleito, consiga manter um bom relacionamento com o Legislativo. O último político que ocupou o Palácio Iguaçu – sede do governo paranaense – sem maioria na Assembleia foi Roberto Requião, entre 2007 e 2010, o que resultou num mandato repleto de atritos com parlamentares. “Eu espero que, se eleito, ele [Moro] entenda a importância da governabilidade, da pacificação dos poderes. Claro, respeito a independência dos poderes, mas eles têm que viver em harmonia. Foi isso que fizemos no Paraná hoje, como um exemplo para o Brasil.”

Moro, por ora, tem se preocupado em fidelizar o voto bolsonarista antes que a máquina do PSD entre com força total na campanha. Na última semana, em entrevista à Band Paraná, o ex-juiz não arriscou um passo fora da cartilha da extrema direita. Defendeu a expansão das escolas cívico-militares – embora não haja, até hoje, evidências consistentes de que essa política melhora o nível da educação pública – e disse apoiar a construção de um presídio estadual de segurança máxima, como forma de passar “um recado” à criminalidade. Mencionou também seu projeto de criar uma agência de combate à corrupção, que teria como função principal evitar fraudes em licitações do governo e o “enriquecimento ilícito de servidores públicos”. “Assim, a gente vai cortar o mal pela raiz. Se acontecer, que seja rapidamente identificado (…) Com isso, a gente vai retomar essa agenda anticorrupção, de baixo pra cima”, prometeu.

Por fim, o ex-juiz atacou o Supremo Tribunal Federal e defendeu a importância da aliança com Flávio Bolsonaro. Novamente, sem mencionar a palavra Master. Nem Dark. Nem Horse.

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