por Mauricio Stycer, na FSP
A ironia é que faltou um protagonista ao Brasil. Os grandes jogadores, hoje, são protagonistas não só nas quatro linhas
“Copa dos protagonistas” é um epíteto que se disseminou por quase todos os meios de comunicação na tentativa de resumir o que está sendo este Mundial. Não consegui identificar a origem, nem se o termo nasceu de forma orgânica ou se foi plantado por alguém. Em todo caso, sinto o odor de publicidade sempre que algum narrador, empolgado, grita na televisão que essa é a “Copa dos protagonistas”.
Ora, no final das contas, toda Copa é dos protagonistas, dos melhores jogadores de cada seleção, dos destaques individuais que afloram naturalmente num jogo coletivo. Convencionou-se dizer que a Copa de 1962 foi de Garrincha; a 1986, de Maradona; a de 1994, de Romário, e por aí vai. Mesmo a Holanda de 1974, que celebrizou o “futebol total”, tinha Cruyff como protagonista.
A necessidade de sintetizar e simplificar é natural no jornalismo. Mas transmissões esportivas, hoje em dia, vão muito além do jornalismo. São eventos em que a informação é engolida pelo entretenimento na busca desenfreada por audiência e engajamento. É muita diversão, emoção e empolgação, naturais ou empostadas. Envolve patriotismo. E muitos negócios.
Os grandes jogadores, hoje, são protagonistas não apenas dentro das quatro linhas, mas em um universo paralelo ao do mídia tradicional. No Instagram, no TikTok e que tais, eles escrevem a própria história, da forma que desejam. É o que um articulista do Instituto Poynter, uma referência em estudos de mídia, chamou de “pós-jornalismo esportivo”.
Junto com esse fenômeno, há também o dos influenciadores digitais, que impulsionam de forma pouco crítica, quando não publicitária, as narrativas dos “protagonistas”.
E, ocupando o espaço do antigo jornalismo profissional, temos o “colunista-torcedor”, cujo clubismo explícito o leva a colocar em primeiro plano a paixão por um determinado time e/ou por jogadores que admira.
As enormes bolhas de fãs ocupam um espaço cada vez maior e são observadas com reverência e temor por quem lida com elas, sejam veículos de comunicação, sejam agências de publicidade. Elas fazem barulho, não apenas festejando seus ídolos, como pressionando e criticando quem se coloca no caminho dos “protagonistas”.
A convocação de Neymar foi um exemplo do poder que todo esse ecossistema pode exercer sobre o mundo do futebol. As críticas pesadas a Roberto Martinez, técnico de Portugal, por ousar substituir Cristiano Ronaldo aos 36 minutos do segundo tempo, no jogo contra a Croácia, também são exemplares das pressões envolvidas no negócio.
Vale lembrar que, neste Mundial, como em outros recentes, os protagonistas, em sua grande maioria, jogam em clubes da Europa e disputam a Champions League, o torneio entre clubes mais valorizado do mundo. Falar em “Copa dos protagonistas” é uma maneira de convidar o espectador a torcer por jogadores, não por seleções, e de seguir colado à tela da TV ou do smartphone quando o torneio terminar.
A cobertura da CazéTV nesta Copa deixou evidente, para quem ainda não tinha se dado conta, que a transmissão de eventos esportivos atingiu um novo patamar de reverência às jovens tribos de fãs desses “protagonistas”. O canal no YouTube formou, ele próprio, uma gigantesca comunidade, que atende ao gosto da sua clientela e, ao mesmo tempo, a ensina a ver futebol de uma nova maneira.
A ironia é que faltou um protagonista ao Brasil.