por Cláudio Henrique de Castro
A soberba alviceleste pisou no gramado com a empáfia dos deuses que julgam ganhar sem muito esforço.
Do outro lado, os humildes da bola corriam com a fome dos deserdados da terra, sem medo das grifes, das malas de milhares de euros exibidas no aeroporto.
Os tubarões azuis mordiam calcanhares e reduziam os esquemas táticos da imprensa internacional a cinzas frias.
Isso foi uma prova de que os comentaristas não entendem de futebol, nem fazem ideia do que ele é ou pode ser.
O favoritismo, essa invenção pálida dos cartolas, quase morreu diante da paixão e da fúria africana.
Cada desarme de Cabo Verde era um poema de amor, um esforço sobre-humano.
Os astros mundiais da bola pareciam sofrer de um complexo às avessas, estáticos perante a mística fulgurante de quem joga pelo pão e pela água potável.
Faltou à Argentina o drible para frente, a vergonha na cara e a malandragem que o futebol moderno enterrou.
Os ricos da bola esqueceram que quem não corre acaba engolido pelo imponderável.
No gesso do gramado, desenhou-se uma tragédia shakespeariana onde a camisa pesada não encontrou eco na realidade nua e crua.
Cabo Verde, possuído por uma transcendência divina, provou que a alma do jogo resiste nos humildes.
Apesar da história colonial e da escassez econômica de Cabo Verde, as coisas podem ser diferentes.
No apito final, a nobreza desabou e a bola quase puniu os soberbos com a mais bela justiça poética.
Redescobrimos onde está a arte.
A Argentina ganhou, mas não levou a pecha de vitoriosa.