8:34O filósofo de coquetel

por Carlos Castelo

Ari Nhotim não nasceu, foi inaugurado. Com direito a vernissage, vinho branco morno e um discurso sobre a curadoria da própria existência. Desde cedo demonstrou sinais de erudição seletiva: aos oito anos, já dizia que não gostava de brincar de bola porque preferia experiências lúdicas mais conceituais. O que, traduzido, significava empilhar tampinhas e chamar de instalação.
Seu nome não é coincidência. Ari Nhotim vai a espaços culturais não para ver, mas para ser visto – vendo. Caminha placidamente entre as obras, mãos para trás, testa franzida, parecendo decifrar o sentido da vida, quando na verdade tenta lembrar o nome do artista que acabou de ler na plaquinha.
Ele domina a arte do comentário vazio com uma precisão quase científica. Diante de uma tela branca, murmura: “Interessante como o silêncio visual dialoga com o caos interno do observador”. Como acontece nesses ambientes, todos em volta acham uma sacada inteligentíssima. Afinal, ninguém quer se revelar menos culto do que aquele cidadão tão letrado. O que, diga-se de passagem, é mais fácil do que parece.
Ari Nhotim tem um vocabulário próprio, composto por palavras como “ressignificação”, “interseccionalidade estética” e “ruptura narrativa”, usadas de forma aleatória, como tempero em comida ruim: não melhora, mas disfarça.
Seu maior medo é ser descoberto. Por isso, evita as perguntas diretas. Quando alguém lhe pede opinião sobre um livro, responde:
– Prefiro não limitar a obra a uma interpretação linear.
Traduzindo: não leu.
Quando indagado sobre um filme de arte, costuma dizer:
– A experiência sensorial supera a narrativa.
Traduzindo: dormiu no meio do longa-metragem.
Mas é em Inhotim, o lugar real, que Ari Nhotim atinge seu auge. Lá é onde se sente em casa, ou melhor, em exposição. Tira fotos despretensiosas, sempre olhando para o horizonte, como se estivesse contemplando alguma coisa profunda, quando na verdade está tentando dar a ideia de que contempla algo insondável.
Ele não aprecia a arte; mas a ideia de ser alguém que aprecia a arte. É um colecionador de impressões, nunca de experiências. Sai dos lugares com mais fotos do que memórias, mais frases prontas do que pensamentos próprios.
E, no entanto, há algo admirável em sua pessoa. A dedicação é inegável. Ser raso com tanta consistência exige muito esforço. E ele estudou: não os conteúdos, mas as poses. Pois, em um mundo onde parecer é mais importante do que ser, Ari Nhotim é, sem dúvida, um grande mestre.
Por outro lado, se repararmos bem, talvez todos tenhamos um pouco dessa profundeza de superfície de Ari Nhotim. Na real, ele só tem mais prática.

(Publicado no Rascunho)

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