8:22A salvação da pátria tem pé chato

por Lea Oksenberg, no Vigília Comunica

O Cauã cresceu demais da conta. Aquele negócio típico de menino criado por avó: o guri passou dos um e oitenta, come por quatro, mas se você olhar bem, ainda tem aquela cara de quem sonha com os anjos e morde o canto do cobertor dormindo. Só que o relógio não para, e o moleque está perto de cravar 18 anos. Aí azedou. Está chegando a hora de se alistar.

O problema é que a avó dele vê o exército da época da ditadura. Para ela, entregar o Cauã para a farda é o fim do mundo. “Não, não, não”, ela repete, muito perto de surtar — e quando ela surta, o sangue some da cara. Trava o maxilar, o olho arregala e ninguém tira a ideia da cabeça dela.

A sorte é que o Cauã nasceu com o pé chato. A avó só se deu conta disso conversando com uma amiga que lhe contou, cheia de mistério, como também conseguiu livrar o filho dela dessa sessão verde-oliva. Para a mãe do Cauã, o pé plano é caso de levar no ortopedista. Para a avó? É a salvação da lavoura. O pé chato virou o bilhete de alforria do neto.

Aí começa a loucura. Ela age na surdina. Desenterra uma daquelas pastas de elástico velhas, desbotadas, e começa a juntar papel. Mas muito papel. Tem receita de médico que já morreu, raio-X da época que Cauã era bebê, laudo de posto de saúde amassado… Ela monta um dossiê que parece pronto para incriminar o Estado, tudo para provar para o sargento que o neto não aguenta cinco minutos de marcha.

No dia do alistamento, fantasiava a idosa, ela não iria querer saber de ficar em casa: iria junto, arrastando o neto pelo braço e abraçada à pasta de elástico. Na cabeça da avó, já estava tudo certo!

Na hora do exame médico, o sargento mandaria os rapazes ficarem descalços em fila. Quando o médico militar batesse o olho no pé do Cauã — que mais pareceria duas fatias de pão de forma assentadas no chão —, nem precisaria abrir a pasta. O médico apenas suspiraria, carimbaria o papel e diria: “Dispensado”.

A avó não iria se conter. Em vez de comemorar em silêncio, ela abriria a pasta de elástico, jogaria os laudos médicos para o alto como se fossem confete de Carnaval e gritaria no meio do quartel, apontando para o sargento: “Eu avisei! Esse pé aí não marcha, meu senhor! Se vocês tentassem, ele quebrava o quartel inteiro!”. Cauã, vermelho de vergonha com os papéis caindo na sua cabeça, só conseguiria enfiar o pé chato no chinelo e arrastar a avó para fora dali antes que o exército mudasse de ideia por pura exaustão. A ditadura não venceria a pasta de elástico.

Eu tentei fugir, não queria me alistar / Eu quero lutar, mas não com essa farda…(Núcleo de base – Edgar Scandurra)

Compartilhe

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.