por Luiz Felipe Pondé, na FSP
O petista poder ser reeleito é uma anomalia republicana. A direita se afoga na herança maldita de uma família
O simples fato de que Lula —ou qualquer outro presidente de qualquer outro partido— pode ser reeleito no Brasil “n” vezes para o primeiro cargo da República prova que somos uma República das bananas. Trata-se de uma anomalia republicana. Neste momento, parece não haver esperança política para o Brasil no horizonte. Brasília é uma Babilônia.
Seremos enganados pela gangue do PT por décadas sob a ladainha de que “progressista corrompe para o bem” ou seremos objeto de líderes incapazes —os Bolsonaros. E, também, seremos vítimas dos abusos do STF que tem no Brasil o seu quintal. Enfim, a grande virtude do povo brasileiro parece ser não desesperar da vida diante de tantos delinquentes que assolam as elites do país.
O caso do Lula —ou qualquer outro presidente por décadas— poder ser reeleito até chegar à condição de faraó imortal do país é gritante. Para além de que o Lula será presidente pela quarta vez com idade muito avançada —como Joe Biden e Donald Trump nos Estados Unidos— e que não se fala muito disso na mídia profissional porque ele é “progressista”, há o dado inegável de que o PT não consegue gerar nenhum outro candidato viável porque o Lula transformou o partido no seu galinheiro privado.
A direita, por sua vez, se afoga na herança maldita de uma família, os Bolsonaros, que se arvorou, com palmas da maior parte daqueles que se dizem conservadores, no direito de também ter um galinheiro para chamar de seu. A democracia brasileira hoje pode escolher entre dois galinheiros: o do Lula ou o dos Bolsonaros.
A reeleição é objeto de crítica por grandes filósofos, em momentos distintos da história, mas essa platitude parece ter sido esquecida nessas terras de dois candidatos péssimos. Talvez, a única forma menos indecente de votar esse ano seria recusar ambos. Mas, quem disse que, num regime numérico como a democracia, deveríamos esperar outra coisa além da estupidez em grande escala?
Para citar alguns poucos famosos, Aristóteles, Montesquieu, Rousseau, Tocqueville e mesmo Karl Popper, epistemólogo, todos eram contra, de uma forma ou de outra, a ideia de que representantes do povo se eternizassem no poder.
Para eles, a não alternância no poder representaria, basicamente, dois tipos de degeneração. A primeira sendo a corrupção do caráter do líder —digamos, a pessoa física do líder. A segunda sendo a corrupção institucional do Estado —digamos, a pessoa jurídica, ou seja, a máquina do Estado cooptado pela gangue. Quando um mesmo líder e seu partido permanecem muito tempo no poder, necessariamente ele colonizará o Estado de tal forma que, por anos, mesmo se não reeleito, o Estado será deles.
De forma sucinta, haveria duas razões básicas, apesar de distintas à primeira vista, para se recusar tanto o Lula quanto o Flávio Bolsonaro nessas eleições. Contra o Lula é o fato indiscutível de que ele é um líder populista barato, desgastado, que quer ser o imperador louco do Brasil, que mantém sua gangue sugando o país até virarmos uma ameixa seca.
Contra seu opositor, a coisa é aparentemente mais simples de enunciar: além de também querer ascender à condição de líder de gangue, ungido pelo papai e não mais apenas capo de quadrilha de batedor de carteiras, Flávio Bolsonaro parece carregar consigo uma herança maldita, a saber, uma reduzida capacidade cognitiva e epistêmica.
Literalmente, estamos no mato sem cachorro. E logo começará o triste espetáculo da propaganda eleitoral, o circo da democracia. Uma das maiores contradições da democracia são as eleições —um circo de mentiras. Mas quem disse que apenas a democracia detém o monopólio da mentira na política? Política e mentira são inseparáveis.
Política e mentira andam de mãos dadas desde sempre, sendo a diferença específica da democracia nessa parceria, apenas, o fato de que na democracia mentir está ao alcance de todos. Democratizamos a mentira, que passou a ser um direito universal de todo cidadão.
Nas formas monárquicas —ou tirânicas—, oligárquicas —ou aristocráticas—, o direito à mentira era para poucos. Na democracia, todos têm acesso à prática da mentira. Vale lembrar que desde a Antiguidade só se conhece essas três formas de governo.
A polarização enquanto tal nos remete ao fato de que o conjunto social tende à pobreza semântica, ou dito de outra forma, tende à estupidez. Com as redes sociais como agente político nessa escalada, esse traço das multidões alcançou a imortalidade.
E para coroar a Babilônia, uma aposta: o caso Master será enterrado com honra zero. Os Três Poderes se reunirão para sepultá-lo.