6:40A absolvição do espelho

por Lea Okseanberg, no Vigília Comunica

A janela insistia no cinza de todos os dias. No termômetro da avenida, os sete graus pareciam o peso exato que os ombros de Luzia conseguiam carregar ao cruzar a sala. Ela colocou a chaleira no fogo, um gesto repetido tantas vezes que os objetos já pareciam conhecer o ritmo de suas hesitações.

Enquanto esperava a água ferver, o silêncio da casa era preenchido por uma canção antiga — daquelas que Luzia guardava na memória e no peito há décadas, como velhas amigas que se recusam a ir embora. Era uma melodia do tempo em que a esperança parecia um projeto viável, um samba antigo que contrastava com a dureza cruel do agora. Hoje, as notícias que chegavam pela tela ou pelo papel falavam de desamparo, de salas de aula esquecidas e de calçadas frias onde o inverno não pedia licença para os que não tinham teto. O mundo parecia andar de cabeça para baixo, tomado por uma aridez que ela não reconhecia.

Luzia olhou para o telefone. Havia um cansaço na forma como certas relações se transformavam ao longo dos anos. Uma metamorfose lenta, feita de silêncios compridos, que ela não sabia se devia tentar romper ou apenas testemunhar. Sentou-se, segurando a xícara quente entre as mãos, pedindo mentalmente desculpas pelo café que talvez ficasse forte demais, ou por não ter forças para consertar o que estava quebrado lá fora. Pedindo desculpas, como sempre, pelo que fazia e pelo que deixava de fazer.

Luzia olhou para as próprias mãos ao redor da xícara. O calor do vidro começava a ceder para o ar frio da cozinha, mas algo nela, finalmente, reagiu.

Havia coisas, ela sabia, diante das quais era preciso aceitar a própria pequenez, a própria insegurança. Ela não podia esticar os braços e alterar os sete graus do termômetro da avenida. Não podia, sozinha, reescrever as notícias, iluminar a política ou cobrir com um cobertor cada calçada fria da cidade. O mundo continuaria seu curso torto do lado de fora. Mas ali, dentro do quadrado da sua cozinha, ela mandava.

Deixou a xícara sobre a mesa. O estalo do fundo do vidro contra o vidro da mesa soou como um alerta. Olhou para o telefone mudo. Aquele silêncio, que parecia uma punição sem crime, também não seria resolvido com mais uma de suas eternas retratações.

Pela primeira vez depois de muitos anos, Luzia sentiu a corda esticar, ainda sem romper. Sentiu o absurdo que era pedir licença por ocupar um espaço no mundo. Desculpar-se por ter feito, por não ter feito, por ter calado, por ter falado… por simplesmente respirar.

Caminhou até o espelho do corredor. O reflexo lhe devolveu os olhos de quem já tinha visto primaveras e invernos demais para se desculpar por ainda estar de pé. Ela aproximou-se do vidro, quase tocando a própria imagem, e num sussurro que não pedia permissão a ninguém, pronunciou a única absolvição que importava:

— Me desculpa — disse para si mesma. — Me desculpa por ter deixado você acreditar, por tanto tempo, que a culpa de tudo era sua. Você só estava viva.

O termômetro não subiu um único dígito. Mas quando Luzia voltou para a sala e aumentou o volume daquela música antiga, o frio já não parecia ter tanta pressa de entrar.

Reconhece a queda e não desanima
Levanta, sacode a poeira
dá a volta por cima (Volta por cima – Paulo Vanzolini)

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