16:06O patriarca de Borá

por Carlos Castelo

De quando em quando faço a mesma peregrinação.
Abandono as urgências da capital e sigo para Borá, o menor município paulista, com menos de mil almas e menor que o Parque Ibirapuera.
Vou visitar meu avô, Pergentino Castelo.
Ele é 80+ e mora sozinho num sítio cercado de galinhas, cachorros e ferramentas enferrujadas. Vive de sua plantação de quiabos.
Nos primeiros tempos, eu acreditava no que ele contava. Depois passei a duvidar de tudo. Hoje adotei uma posição intermediária: escuto.
Porque as histórias de Pergentino ocupam uma região situada entre o exagero e a afronta às leis da realidade.
Segundo ele, já pescou um surubim que sabia assobiar e recebeu conselho financeiro de um papagaio.
Foi numa dessas visitas que ouvi dele mais uma história extraordinária.
Assim que cheguei, foi anunciando da varanda, em seu estilo único de falar:
“Meu neto, essa noite tive uma pesadelice que só estou aqui à força de chá de mulungu.
O sonho era nos finalmentes das finais da Copa. O estádio relampejava de gente. As arquibancadas estavam tão cheias que até defunto antigo pediu licença ao cemitério para presenciar o combate.
Neymar, príncipe dos dribles, conde das caneladas recebidas, marechal das redes sociais, estava sentado. Mas não abancado de qualquer maneira. Era um sentar de primeira grandeza.
Enquanto isso, os outros onze corriam num alvoroço de anunciação de desgraça. Menino Ney permanecia em seu tamborete, quieto como santo de procissão em dia de pouco milagre. Só de butuca.
O jogo caminhava para aqueles aperreios que fazem um homem envelhecer duas dentaduras numa tarde. Foi então que assucedeu-se o sucedido.
O goleiro adversário, sujeito de grandes envergaduras e pequena sorte, apanhou uma bola e resolveu despachá-la para a intermediária. Armou a pernada, bombeou o couro e o esférico saiu atravessando o estádio como um buscapé de rabo quente.
Mas o destino tinha outra minuta. A bola, em vez de procurar seus jogadores no campo, foi encontrar justamente o cocuruto de Neyzinho que seguia assentado.A redonda colidiu com aquele alto de cabeça e deu um estrondo de melancia madura. Abalroou e voltou. Avoou com tamanha inspiração geométrica que varou o gramado inteiro, descreveu uma curva de cometa, e foi cair nos de cima do arqueiro que a havia chutado.

Gol de banco de reservas.

Por um tempo, ninguém assuntou nada. O juiz pulou no VAR feito uma onça de comer gente. O VAR ficou em silêncio administrativo.

Mas os jurídicos da FIFA logo confirmaram o fato consumado. O gol era juramentado.

Naquele instante, Neymar deixou de ser apenas futeboleiro. Foi cocurutizado pela História. Sua moleira adquiriu jurisdição internacional. Teve quem recolhesse fotografias do lance para rezar diante delas. Um vereador propôs transformar o banco de reservas do Brasil em patrimônio da humanidade.

Quando veio o assopro derradeiro, o Brasil era campeão do mundo. Sem chute. Sem drible. De quengo.

Em após se deram as medalhas, as discurseiras e os lacrimejamentos regulamentares. Neymar recebeu as comendas serenado, como os atletas que trabalham sentados e mesmo assim entregam o serviço.
Alguns contestaram a façanha. Eu não. Embora, no rigor dos fatos, eu deva confessar que, no momento do gol, me ergui da cama para fazer a chuva escorrer pelo ralo da bexiga.
Mas, durante o sonho, quase todo, acompanhei a peleja de perto. Como manda o figurino.”

(Publicado no Estadão)

 

 

 

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