por Giceli Portela*
Dona Veneza – Bom dia, Eugênio. Preciso de uma reforma lá em casa.
Eugênio – Desculpe, dona Veneza. Agora não faço mais reformas. Sou retrofiter.
V- Ah… então o senhor poderia re-tro-fi-tar minha casa?
E- Do que se trata?
V- É uma casa antiga, dos meus avós. Tenho medo de que ela perca sua história com uma reforma sem sensibilidade.
E- Ela é tombada?
V- Não. Mas é importante para mim.
E – Então a senhora precisa de um restaurador.
V – Deus me livre! Vai custar uma fortuna e vão querer deixá-la como era há cem anos.
E – Quem lhe disse isso?
V- Ouvi dizer…
E- Pois ouviu errado. Restauro não faz uma casa voltar no tempo. Isso só existe em filme. O objetivo é cuidar dela, preservar o que merece permanecer, substituir apenas o que chegou ao fim da vida útil, reforçar a estrutura quando necessário e permitir que continue vivendo. Como um idoso: saúde, dignidade e longevidade. As rugas contam histórias.
V – Então isso não é retrofit?
E – Não, senhora. Isso se chama restauro.
V – Que palavra bonita.
E – E cheia de significado. No Brasil, quem projeta e coordena o restauro de edificações são os arquitetos, reunindo engenheiros e outros especialistas conforme a necessidade.
V – Entendi. E o senhor faz o quê?
E – Ainda não sei. Estou procurando trabalho.
V- Então tenho uma ideia: por que não volta a fazer reformas? Reforma também pode ser feita com respeito, inteligência e sensibilidade. Nem toda reforma destrói. Nem todo prédio antigo precisa de uma palavra em inglês para ganhar valor.
O retrofiter sorriu.
Talvez o problema nunca tivesse sido o trabalho.
Talvez fosse apenas o nome.
Ela saiu procurando um arquiteto.
Ele ficou procurando uma tradução para si mesmo.
*Giceli Portela é professora na UTFPR e sócia da G Arquitetura Construção e Restauro. (Graduação em Arquitetura e Urbanismo pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (1992), mestrado em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade de São Paulo (2009) e doutorado em ARQUITETURA E URBANISMO pela Universidade de São Paulo (2015), Pós Doutorado na École de Chaillot ( Paris- França)