6:31A guilhotina e o Plano Piloto

por Carlos Castelo

Robespierre apareceu em Brasília, num dia qualquer, sem aviso prévio. Surgiu perto da Rodoviária, como quem perdeu uma conexão em 1794 e só agora conseguira recuperar a bagagem.
Passou boa parte da manhã observando aquele cenário de linhas geométricas. Havia algo de grandioso em tudo aquilo, mas também algo que o intrigava.
— Onde está o povo? — perguntou.
Um funcionário público, que aguardava um carro de aplicativo para percorrer uma distância de trezentos metros, explicou que o povo estava espalhado pela cidade.
— Não estou vendo ninguém.
— Porque está todo mundo dentro de carros.
Robespierre olhou ao redor.
— E por que não saem?
— Porque estão indo para algum lugar.
— E quando chegam?
— Entram em outro carro.
Mas o verdadeiro choque veio depois.
Num café, alguém lhe entregou alguns jornais. Robespierre começou a leitura com a curiosidade de um visitante interessado em conhecer a vida política local. Terminou algumas horas depois com a expressão de quem acabara de descobrir uma nova forma de loucura administrativa.
As manchetes falavam de escândalos envolvendo partidos de todas as colorações. À medida que avançava na leitura, Robespierre começou a desenvolver uma leve contração no olho esquerdo.
Leu sobre desvios de recursos, investigações, delações, anulações processuais, recursos judiciais, prescrições e absolvições celebradas com entusiasmo reservado às conquistas esportivas.
Quando percebeu que a tarefa exigiria mais pesquisa do que a Revolução Francesa inteira, pediu outro café. Foi nesse instante que lhe veio a ideia.
Na manhã seguinte, reuniu a imprensa e anunciou a criação do Comitê Nacional de Higienização Política.
A notícia produziu um efeito extraordinário. Políticos experientes passaram a demonstrar um apreço repentino pela discrição. Parlamentares desapareceram de restaurantes onde eram vistos havia décadas. Ex-governadores descobriram parentes remotos em países distantes.
Os mercados reagiram nervosamente. Os comentaristas políticos ficaram eufóricos. E Brasília se comportou da maneira tradicional: criando grupos de trabalho.
Robespierre instalou seu quartel-general na Esplanada dos Ministérios e ordenou a construção de uma gigantesca guilhotina.
Então surgiu um obstáculo inesperado.
Ao elaborar a lista dos candidatos à lâmina, Robespierre descobriu que a tarefa era muito mais complexa do que imaginara. A relação de nomes cresceu tanto que exigiu classificações, anexos e subanexos.
A própria guilhotina começou a enfrentar dificuldades. Foi necessário abrir licitação para a compra de componentes.
A licitação gerou questionamentos. Os questionamentos geraram recursos. Os recursos geraram pareceres. Os pareceres recomendaram novas análises. As novas análises justificaram a criação de uma comissão. A comissão concluiu que seria prudente criar outra comissão.
Meses se passaram e a guilhotina ali, imóvel.
Robespierre, homem acostumado a resolver impasses históricos com objetividade, observava tudo aquilo com crescente perplexidade.
Certa tarde, um jornalista conseguiu entrevistá-lo.
— Maximilien, qual é sua avaliação da experiência brasileira?
O revolucionário olhou para o Congressso, depois para a pilha de documentos acumulados sobre sua mesa. Por fim, suspirou.
— Na França, nós tínhamos uma revolução.
— E aqui?
— Aqui, vocês transformaram a revolução em processo administrativo. É isso é péssimo.
O jornalista apontou para a guilhotina enferrujada que se erguia ao longe sem jamais ter sido utilizada.
— Por quê?
— Porque a minha guilhotina cortava cabeças.
Fez uma pausa.
— E a daqui só corta prazos.
Foi a primeira vez na História em que Maximilien Robespierre admitiu uma derrota para o carimbo.
(Publicado no DCM)

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