11:12A linha de montagem do sofá

Por Lea Oksenberg, no Vigília Comunica

O mistério não era quem havia matado o guarda, mas sim se o dedo indicador de uma Fulana qualquer sobreviveria à próxima notificação. O mundo lá fora podia estar desabando em gols e cartões amarelos na televisão, mas no quadrado daquele sofá, o campeonato era de vida ou morte digital: a Copa do Mundo da Produtividade Absoluta.

Ela estava de molho. Quinze dias obrigatórios de pernas para o ar, uma daquela pausas que o corpo impõe quando a cabeça teima em fingir que é de ferro. A etiqueta do confinamento moderno exige que o doente ostente uma palidez digna, use uma manta charmosa e suma do mapa. Mas a Fulana cometeu o pecado capital da era do home office: tentou avisar no privado que continuaria produzindo, só que no ritmo de quem negocia com a dor.

Foi aí que o suspense se instalou. Parecia um filme de Hitchcock. A resposta da coordenação veio na velocidade de um contra-attack, em letras garrafais: “Melhor te tirar do grupo.”

Instaurou-se o terror psicológico via WhatsApp. O relógio corria. O cursor piscava. De um lado, a chefia, cuja forma peculiar de demonstrar amor e preocupação com a saúde alheia era a ameaça de banimento sumário. “Se reclamar no grupo de trabalho, é exclusão!”, decretou ele, num misto de carinho paternalista e ditadura de aplicativo. A Fulana, com o coração na boca e a mão trêmula segurando o celular, via o ícone do grupo flutuar na tela como uma guilhotina prestes a cair. Era a iminência do descarte por excesso de honestidade.

Foi quando o teto do quarto pareceu descer e um choque de realidade, desses que não pedem licença, bateu no meio da testa. O suspense da exclusão digital virou poeira.

Enquanto ela travava sua revolução particular afundada em almofadas, brigando feito leoa para não perder o direito inalienável de digitar de pijama entre um analgésico e outro, o mundo real acontecia lá fora em alta voltagem. Na janela do ônibus, milhares de fulanos cruzavam a cidade. Gente que não tem grupo de WhatsApp para ser excluído porque a exclusão deles é no relógio de ponto. Gente que, com febre, dor ciática ou o peito cheio de tosse, encara duas horas de transporte coletivo para ir e mais duas para voltar do trabalho. Para essa imensa maioria, o corpo não é uma máquina que pede repouso; é uma engrenagem que, se parar, esvazia o prato de comida em casa.

Olhando para o teto, a Fulana riu de si mesma — um riso nervoso, temperado com o ridículo da própria revolta. Que privilégio tragicômico o dela, brigando para trabalhar na cama enquanto o país real mofa no ponto de ônibus sob a chuva. Ameaçada pelo excesso de zelo de um editor e pela rigidez de uma tela, ela descobriu a grande verdade social: a máquina do trabalho odeia o corpo parado. Seja no aperto do transporte público ou no silêncio de um quarto, o sistema não tolera quem ousa desacelerar. Nem que seja para ver o jogo do Brasil.

Ai, mas que agonia

O canto do trabalhador

Esse canto que devia

Ser um canto de alegria

Soa apenas como um soluçar de dor… Canto das Três Raças (Mauro Duarte e Paulo César Pinheiro)

 

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