por Cláudio Henrique de Castro
As mentiras em massa fazem parte do cotidiano das pessoas. Nascem de uma simplificação binária elementar: o verdadeiro e o falso; o bem e o mal; o corrupto e o honesto; o de esquerda e o de direita; o nacional e o estrangeiro; o a favor e o do contra; os meus amigos e os meus inimigos; o nós e o eles; ele é de Deus o outro é do capiroto.
Num jogo de futebol, onde há a violência e o enfrentamento das torcidas organizadas. A barbárie da segunda Guerra Mundial, a ascensão dos totalitarismos nazifascistas, a Guerra Fria e, agora, a ascensão de Trump e os conflitos mais recentes, um tudo ou nada, despido de racionalidade. Neste contexto, as mentiras em massa estão situadas numa falsa simetria, isto é, de falsos opostos. No cenário eleitoral, cria-se o inimigo; no contexto religioso, cria-se o herege e assim sucessivamente.
Como entram as mentiras em massa na cabeça dos eleitores?
O tráfego diário nas redes consome cerca de 1,7 GB por pessoa. Se isso for transformado em texto puro, o volume total de dados diários que atinge nosso cérebro, incluindo vídeos e feeds, equivaleria a cerca de 100.000 palavras lidas. Essa carga de estímulos é o mesmo que ler dois livros inteiros por dia ou processar duas palavras por segundo durante todo o tempo em que estamos acordados (Humology).
Assim, as informações desatualizadas, as meias informações, as omissões deliberadas, e as mentiras propriamente ditas, são confundidas com a enxurrada de dados lidos diariamente.
As mentiras contrárias à ciência são consolidadas, as reputações destruídas, os fatos contados de forma tendenciosa, sem a integralidade da matéria, sem a escuta do outro lado, isso tudo repetido e repisado com mecanismos digitais, sem controle jornalístico, acadêmico ou científico.
Outra estrutura que fortalece as mentiras em massa são os algoritmos que induzem a canais habituais de leitura. E a proteção jurídica para tudo isso? Em nome da liberdade de opinião, a falácia que consolidou as redes e a propagação de mentiras.
Não há, rigorosamente, mecanismos eficazes e céleres para barrar e coibir as fake news e a incitação ao ódio. Sobram os processos administrativos e judiciais que não possuem a adequada celeridade de repressão imediata ou instantânea, muito embora a Inteligência Artificial (IA), possa ser usada para isto.
Os efeitos são incalculáveis, desde a ascensão de políticos neofascistas como está ocorrendo na União Europeia e mundo afora; as chamadas guerras híbridas (das informações em rede) e a formação de zumbis, com baixa intelecção e déficit cognitivo, sem juízo crítico ou a possibilidade de diálogo. Informações falsas produzem mundos paralelos, e as “verdades” se fantasiam de opiniões.
As opiniões vencem os fatos, e a realidade é um mero detalhe.