por Lea Oksenberg, no Vigília Comunica
Minha professora da quarta série, dona Catarina, tinha uma paciência de santa e um giz sempre novo na mão. Passou semanas tentando enfiar na nossa cabeça a tal da conjugação verbal. Eu amo, tu amas, ele ama. O “eu” era fácil, o “tu” mais difícil, mas o “ele” era uma entidade misteriosa. Dona Catarina ajeitava os óculos e explicava com precisão incrível : “A terceira pessoa, crianças, é aquela de quem se fala. Ela não está na conversa, mas a gente fala dela.”
Mas a gramática só fazia sentido mesmo quando a gente saía do quadro negro e ia para a ação. É que a nossa Morah, embora fosse mais feia que bater na mãe, era uma flor de pessoa. Fora dar aulas de língua portuguesa, ela adorava montar peças de teatro com os alunos. Quando aquela pessoinha entrava na cena, o mundo quadrado dos pronomes ganhava vida. “Criança não foi feita para ficar sentada conjugando a vida no infinitivo!”, dizia, distribuindo papéis e figurinos improvisados. No palco da escola, quem era “eu” virava “tu”, quem era “ele” virava rei, e a periferia do cenário virava o centro das atenções. Ali, no teatro, ninguém ficava invisível.
Demorei décadas para entender que dona Catarina, com sua diretoria de cena improvisada, estava nos dando a chave para entender o Brasil. É que, fora do teatro da infância, o figurino da vida real é cruel.
Por aqui, a terceira pessoa está longe de ser apenas um pronome. É uma categoria social. É o sujeito invisível que move o país em silêncio enquanto a primeira pessoa — o “eu” blindado no ar-condicionado — reclama no celular que o sinal do Wi-Fi caiu ou que o café veio morno. O “eu” adora se queixar na primeira pessoa do plural (“nós estamos esgotados”, “nós sofremos com o trânsito”), mas esquece que quem está segurando o piano, lá na terceira pessoa do singular, sequer tem tempo para conjugar o verbo cansar.
Repare no balé da calçada. O “eu”, apressado, desvia de uma poça d’água xingando o prefeito e limpando o sapato. Logo ao lado, a “terceira pessoa” — o gari de uniforme — varre as folhas com uma vassoura de gravetos, equilibrando-se no meio-fio para não ser atropelado pelo ônibus. Ele ouve o mesmo desaforo do trânsito, mas, em vez de esbravejar, canta um samba baixinho. Um abismo separa o sapato do “eu” da galocha do “ele”. Estão na mesma rua, mas habitam planetas gramaticais diferentes.
E o Brasil é especialista em multiplicar essas terceiras pessoas. É o entregador de aplicativo que quebra a moto no trânsito; é a moça que corre atrás do ônibus às seis da manhã carregando o almoço na marmita; é o flanelinha que o motorista finge não ver, olhando fixamente para o painel do carro. São os sujeitos que estão na nossa frente, mas dos quais falamos como se estivessem ausentes. A primeira pessoa tem a incômoda mania de achar que a terceira pessoa não tem ouvidos.
No final do dia, o “eu” deita a cabeça no travesseiro, exausto de “tanto trabalhar” diante de uma tela. Enquanto isso, a terceira pessoa, que carregou o mundo nas costas para que o dia do “eu” funcionasse, ainda está na fila do ponto de ônibus. Na escuridão da noite, ela recolhe os adereços, apaga as luzes do cenário alheio e segue esperando a sua vez de, finalmente, ter direito a conjugar o verbo descansar.
A sorrir eu pretendo levar a vida
Pois chorando eu vi a mocidade
Perdida
(O sol nascerá – Cartola e Elton Medeiro)