8:35Três minutos de chiado ou seu dinheiro de volta

por Lea Oksenberg, no Vigília Comunica

Heloísa olhava para a nova bancada com a desconfiança de quem acaba de chegar em Marte. Tudo ali era super plano, oculto, embutido — uma conspiração da engenharia para convencer o mundo de que a vida pode ser organizada em ângulos retos. As novas torneiras reluziam um brilho e tanto, e a torre de tomadas retrátil subia e descia com a precisão de um elevador. Era a vitória da modernidade. No entanto, quando ela recolheu do chão o velho rádio Zenith de um material que nem ela sabia explicar, com suas válvulas que demoravam três longos minutos de chiado antes de aquecer e cantar, Heloísa percebeu o impasse: o futuro que ela acabara de mandar fazer não parecia ter espaço para a poeira das suas memórias.

A reforma começou com a promessa de simplificar a rotina. “Menos é mais”, repetia o rapaz que desenhou o projeto. Heloísa aceitou os termos. Tentou se desfazer dos excessos, encaixotou o passado e assistiu à demolição da antiga cozinha com uma mistura de libertação e culpa. Mas logo descobriu que essa coisa toda arrumadinha não era a dela. Percebeu que esse tipo de organização não tolera o desalinho; exige panos de microfibra específicos, superfícies intocadas e uma disciplina quase militar. O novo cooktop de cinco bocas parecia um altar sagrado onde dava até pena acender o fogo e espirrar a margarina do cotidiano.

O verdadeiro confronto, contudo, deu-se na hora do acabamento. Com a bancada limpa, o técnico deu o trabalho por encerrado. A cozinha reluzia, livre de qualquer bactéria e perfeita, como o cenário de um comercial de televisão onde ninguém de fato vive ou chora. Foi quando Heloísa buscou o Zenith. Segurou o rádio pesado contra o peito, sentindo o cheiro de coisa antiga e eletrônica cansada, e tentou acomodá-lo no nicho planejado. Não coube. O rádio, que sobrevivera a tantas mudanças, parecia um bicho estranho naquele ecossistema de inox, granito e vidro temperado.

O técnico sorriu, me olhou com aquela cara de quem vê uma senhora analógica. “Esse aí já deu o que tinha que dar, dona Heloísa. Hoje em dia a senhora liga o celular direto por Bluetooth”. Ela não argumentou. Sabia que não adiantaria explicar que o Bluetooth não tem o tempo do afeto. O algoritmo não entende a beleza de esperar a válvula esquentar, aquela penumbra dourada que subia de dentro do aparelho enquanto a voz de um sambista antigo preenchia a sala, curando qualquer solidão de fim de tarde. O moderno resolve o presente, mas ignora o que fomos.

Sozinha na cozinha nova, Heloísa tomou a sua primeira decisão de resistência. Ignorou as linhas retas do projeto e empurrou o moderno aparelho de café para o lado. Abriu espaço à força. O Zenith, soberano e desengonçado, ocupou o centro da bancada. Quando ela finalmente ligou o rádio, a luz suave da válvula acendeu e foi refletir no vidro do cooktop. Levou o tempo de sempre — três minutos do bom e velho chiado, mas quando a música finalmente saiu de dentro daquele aparelho. A voz de Luiz Bandeira ecoou soberana, transformando o mármore frio em salão: “Que bonito é / Gafieira, salão nobre / Seja rico seja pobre / Toda gente a sambar…” A cozinha deixou de ser uma vitrine de loja e voltou, finalmente, a ser a casa de Heloísa.

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