6:00Entre probabilidade e potencial: por que o Brasil ainda pode sonhar com o hexa em 2026

por Fernanda Letícia de Souza*

Em tempos de futebol cada vez mais orientado por dados, a seleção brasileira entra na Copa do Mundo de 2026 cercada por uma aparente contradição: enquanto seu elenco é, em termos individuais, um dos mais talentosos e valiosos do torneio, os modelos estatísticos apontam um cenário de desconfiança. O contraste entre desempenho recente e potencial técnico ajuda a explicar a divergência entre chegar ao mundial como incógnita e, ao mesmo tempo, como candidato real ao título.

Um estudo recente da Fundação Getulio Vargas (FGV) evidencia esse paradoxo. De acordo com o modelo estatístico, que utiliza dados de 2.997 confrontos entre 187 seleções e simula cada jogo cerca de 100 mil vezes, o Brasil aparece apenas na 9ª posição entre os favoritos ao título, com 4,68% de probabilidade de conquistar o hexacampeonato. Seleções como Colômbia (5,56%) e Marrocos (4,90%) figuram à frente, sustentadas por campanhas mais consistentes no ciclo recente. Trata-se de um retrato quantitativo que não deve ser ignorado, mas que também não pode ser interpretado como sentença definitiva. Afinal, o futebol é um dos fenômenos mais difíceis de prever.

Ao analisarmos o desempenho da seleção sob o comando de Carlo Ancelotti, percebemos que os números fazem sentido quando confrontados com os desafios táticos observados em campo. O Brasil conta com peças de destaque no cenário internacional, como Vinícius Júnior, protagonista ofensivo e principal referência técnica, e Raphinha, que vive fase produtiva no futebol europeu. No meio-campo, Bruno Guimarães e Lucas Paquetá oferecem dinamismo e criatividade, enquanto a defesa liderada por Marquinhos e Gabriel Magalhães apresenta solidez em nível individual.

No entanto, o problema não está nas peças, mas no funcionamento coletivo. A equipe tem demonstrado vulnerabilidade no espaço entre linhas, especialmente na transição defensiva, com laterais expostos e dificuldades de recomposição, um ponto crítico evidenciado em amistosos recentes. Somam-se a isso a oscilação na organização do meio-campo e a indefinição no comando de ataque, onde ainda se busca o “camisa 9” ideal.

Por outro lado, limitar a análise à fotografia do ciclo atual é reduzir o futebol a uma lógica puramente matemática. Diferentemente de outros esportes, a Copa do Mundo é um torneio de curta duração, altamente influenciado por fatores emocionais, entrosamento momentâneo e desempenho individual em jogos decisivos. Além disso, há elementos qualitativos que escapam aos modelos. O retorno de Neymar, ainda que após lesão, agrega experiência e capacidade de decisão. E, talvez mais importante, a comissão técnica experiente de Ancelotti oferece a possibilidade de ajustes rápidos ao longo da competição, fator que pode ser determinante em torneios eliminatórios.

O desafio brasileiro, portanto, não é reinventar seu futebol, mas encontrar equilíbrio. A história da Copa do Mundo está repleta de exemplos de seleções que chegaram desacreditadas e saíram campeãs. O Brasil de 2002, por exemplo, também carregava dúvidas antes do torneio e terminou levantando a taça. Em 2026, o cenário é semelhante: há questionamentos, inconsistências e estatísticas pouco animadoras. Mas também há talento, tradição e capacidade de evolução.

Entre números e expectativas, permanece uma certeza: o futebol não se decide apenas em algoritmos. E é exatamente nesse espaço imprevisível que o Brasil sempre cresce. Mais do que olhar para os 4,68%, é preciso reconhecer o que não se consegue medir em números: o peso da camisa, o brilho individual nos momentos decisivos e a capacidade histórica de superação.

Diante disso, acreditar no hexa não é otimismo ingênuo. É reconhecer que, quando talento, ajuste e confiança se encontram, o improvável deixa de existir.

*Fernanda Letícia de Souza é Especialista em Fisiologia do Exercício e Prescrição do Exercício Físico e professora da Área de Linguagens Cultural e Corporal do Centro Universitário Internacional UNINTER 

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