por Lea Oksenberg, no Vigília Comunica
O brasileiro, do mais carola ao ateu, não passa cinco minutos sem acionar Deus. Reparou? Ele virou pontuação na nossa língua, quase uma vírgula. É “Graças a Deus” para saudar a sexta-feira, “Meu Deus do céu” para o susto da conta a pagar e “Vai com Deus” na despedida. O problema, bem se vê, não é a fé; é a nossa simpática mania de terceirizar absolutamente tudo para o andar de cima.
Se o entregador traz o jantar debaixo de chuva, a gente sorri e solta um “Deus te pague”. Pronto: conta quitada e repassada para o caixa divino. Se o plano é duvidoso, jogamos o peso no “Se Deus quiser”. Usamos o nome d’Ele como um salvo-conduto para a nossa própria hesitação. O samba, de Rogério Gaspar e Wesley Range, já diz: …a estrutura lá no alto deve estar balançando de tanta jura por bobagem. Mas o auge desse nosso departamento de Recursos Humanos celestial é a hora da tragédia. O sujeito passa a vida flertando com o perigo, ignora os avisos do bom senso, mas, se o pior acontece, o conversê nos velórios é um só: “Se morreu, foi porque Deus quis”. É a terceirização definitiva, o álibi perfeito. Conforta quem fica, claro, mas convenhamos: muitas vezes é apenas lavar as mãos com a água benta da nossa própria omissão.
A intenção aqui, vale dizer, não é criticar a devoção de ninguém, mas propor uma leve reflexão sobre esse comodismo. Afinal, a própria teologia nos ensina o básico: “Não tomarás o nome do Senhor teu Deus em vão”. Olha que ironia. Poupar o Criador do nosso blá-blá-blá cotidiano e assumir as rédeas das nossas escolhas não seria um ato de rebeldia. Seria um verdadeiro milagre de bom senso.
Tudo que se faz na Terra/ Se coloca Deus no meio/ Deus já deve estar de saco cheio (Saco Cheio — Letra: Rogério Gaspar / Wesley Range)