7:02Dono nervoso, pet neurótico

por Carlos Castelo

Ninguém pergunta ao cachorro se ele quer assistir ao jogo do Brasil. Essa é a primeira injustiça da Copa.
O meu se chama Pingo, é um vira-lata com sobrancelhas expressivas, e há dez anos vive comigo numa relação de confiança mútua que se rompe a cada Copa do Mundo.
Funciona assim: durante quarenta e sete meses, sou um sujeito sereno que fala baixo e distribui petisco. No quadragésimo oitavo mês, visto uma camisa amarela e começo a gritar com os móveis.
Do ponto de vista do Pingo (e tenho me esforçado para adotar o ponto de vista dele, que me parece o único razoável onde moro), não há explicação. O humano fixa os olhos numa caixa luminosa, fica tenso, levanta, senta, levanta de novo, xinga um juiz que não está presente e que, até onde o Pingo sabe, talvez nem exista. Depois grita, sofre, abraça o cachorro com uma força que não foi combinada.
O veterinário recomendou que, nos jogos do Brasil, o Pingo fique num cômodo silencioso, com a roupinha de pressão e música clássica. Anotei tudo. Achei sensato. Depois me ocorreu que ninguém recomendou nada parecido para mim, que sou, na verdade, o animal mais afetado da casa.
Há também a questão das obrigações táticas. Em toda família brasileira, o pet acaba convocado para o esquema. Na minha, o Pingo precisa estar deitado na almofadinha azul (a azul, não a bege, e desde o hino). Em 2022, ele se levantou para beber água aos doze da prorrogação e a Croácia empatou. A correlação foi estabelecida em assembleia familiar e ele foi absolvido por insuficiência de provas, mas ficou aquela coisa no ar. O Pingo hoje só bebe água antes do jogo, como um atleta. Ele não sabe por quê. Nós também não, mas insistimos.
Os gatos, me disseram, lidam melhor com a coisa. O bichano da minha vizinha assistiu ao 7 a 1 do sofá, sem alterar a respiração, e no quarto gol da Alemanha saiu da sala. Não em pânico, mas como quem se retira de uma festa que baixou de nível. Nunca mais assistiu futebol. Há quem chame isso de frieza. Eu chamo de critério.
E ainda virão os pênaltis, porque sempre vêm. O Brasil para, o peito acelera, os fogos estouram no quarteirão inteiro e o Pingo treme embaixo da mesa sem saber que está se borrando pela pátria. Penso em explicar a ele que é só um jogo. Só não falo, por dois motivos: primeiro, porque ele não entende português; segundo, porque não acredito no que estaria dizendo.
No fundo, a Copa expõe uma diferença essencial entre nós. Eu preciso que o Brasil ganhe para ser feliz por mais quarenta e sete meses. O Pingo precisa que o jogo acabe para ser feliz já no minuto seguinte, seja qual for o placar.
Dizem que o cachorro é o melhor amigo do homem porque não entende nada de futebol. Por isso é o único aqui de casa em condições de assistir a uma Copa.

(Publicado na Fórum)

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