10:21Como o deputado Filipe Barros atuou para beneficiar o Banco Master e Daniel Vorcaro

Em O Globo, na coluna de Malu Gaspar, com reportagem de Johanns Eller

Deputado Filipe Barros replicou emenda de Ciro Nogueira, mas nega intenção de favorecer banco; comissão presidida por ele teve audiência tensa com presidente da CVM e convite a Galípolo

O deputado federal Filipe Barros (PL-PR), aliado próximo do clã Bolsonaro, usou seu mandato e o comando da Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional (CREDN) da Câmara dos Deputados para pautar medidas que beneficiariam diretamente o Banco Master e pressionar o Banco Central (BC), a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e desafetos de Daniel Vorcaro no período em que a tentativa de venda da instituição para o BRB era alvo de questionamentos.

Levantamento feito pela equipe da coluna em dados públicos mostra que foram sete requerimentos, um projeto de lei e uma audiência pública entre novembro de 2024 e setembro de 2025, período em que a situação do Master se agravou e Daniel Vorcaro atuou nos bastidores para conseguir mudanças regulatórias que beneficiassem o banco, além da aprovação da venda para o BRB.

O cardápio vai desde a apresentação de um projeto de lei idêntico à chamada “emenda Master”, que Ciro Nogueira (PP-PI) tentou incluir em uma PEC no Senado Federal e acabou rejeitada, até o convite do presidente do BC, Gabriel Galípolo, e o da CVM, João Pedro Nascimento, para depor na CREDN – embora o colegiado trate de temas internacionais e soberania, com pouca ou nenhuma conexão com os temas discutidos.

A primeira medida tomada pelo deputado, indicado ao cargo pela bancada do PL para substituir Eduardo Bolsonaro após o autoexílio dele nos Estados Unidos, foi apresentar um projeto de lei que, se aprovado, ampliaria de R$ 250 mil para R$ 1 milhão a cobertura do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) para aplicações financeiras. O FGC era a base do modelo de negócios do Master, que prometia taxas de retorno muito acima das praticadas no mercado.

O teor do projeto de lei que Barros, atualmente pré-candidato ao Senado, protocolou em novembro de 2024 era o mesmo do apresentado três meses antes por Ciro, ex-ministro da Casa Civil de Jair Bolsonaro. Ampliar para R$ 1 milhão a cobertura do FGC poderia dar fôlego ao Master, mas também causaria um rombo ainda maior ao fundo, que é sustentado pelos grandes bancos e já perdeu estimados R$ 57,4 bilhões por conta do escândalo.

A emenda de Ciro Nogueira bateu na trave — o relator, Plínio Valério (PSDB-AM), disse que não era o caso de incluir o assunto na Constituição e que seria mais adequado um projeto de lei. Foi exatamente o que Barros fez ao protocolar sua proposta na Câmara.

O projeto não chegou a ser votado. Ficou parado na Casa até ser retirado de tramitação em fevereiro deste ano, três meses após a liquidação do Master e a primeira prisão de Vorcaro. No mês passado, uma etapa da operação Compliance Zero que mirou Ciro Nogueira revelou que o texto da “emenda Master” foi redigida por funcionários do banco e entregue na casa do senador dentro de um envelope a mando de Vorcaro.

À equipe do blog, Filipe Barros admitiu ter redigido o PL após tomar conhecimento da emenda proposta pelo senador do PP, que considerou uma “boa ideia”, com o objetivo de proteger investidores de prejuízos.

Mas negou ter discutido o assunto com Ciro Nogueira e disse que nem ele e nem seus assessores jamais tiveram contato com Vorcaro. Mas reconheceu ter retirado a proposta de tramitação por conta da repercussão do escândalo e alegou que pretende reapresentá-la no momento “oportuno”.

 

Pressão sobre a CVM

Barros voltou à carga em junho de 2025, quando já estava na presidência da Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional.

Em dois requerimentos, o deputado do PL convidou o presidente da CVM, João Pedro Nascimento, para discutir “o impacto da atual estrutura regulatória do mercado de capitais brasileiro sobre a soberania econômica nacional” e também o conflito travado entre Irã e Israel e o risco de bloqueio do Estreito de Ormuz. A audiência ocorreu em 8 de julho.

Além de Nascimento, Barros também convidou o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, sem estipular data. O pretexto era discutir ataques hackers ao sistema do Pix em junho, outro tema distante das relações exteriores.

Naquele momento, o BC já tinha constatado as fraudes nas carteiras de crédito vendidas ao BRB e a diretoria se dividia entre liquidar o Master imediatamente ou tentar encontrar uma “solução de mercado”.

Galípolo não chegou a falar à CREDN. Na condição de convidado, não era obrigado a comparecer.

Já Nascimento, amigo de infância de Flávio Bolsonaro e indicado por ele para a Comissão de Valores Mobiliários no governo de Jair, enfrentou uma sessão tensa em que foi muito pressionado pelos deputados.

Às vésperas da audiência, Barros chegou a entregar à Mesa Diretora da Câmara um requerimento de informações direcionado à Previc sobre o fato do chefe da autarquia ter votado em processos relativos ao BTG Pactual enquanto seu irmão ocupava um cargo na área de investimentos do banco de André Esteves, tido na Faria Lima como principal rival de Vorcaro antes da liquidação do Master.

Dez dias depois de depor à comissão, ele renunciou ao comando da CVM um ano antes do término de seu mandato. Como mostramos no blog à época, Nascimento disse a aliados estar sendo ameaçado e citou também o tratamento que recebeu durante a audiência, na qual Barros questionou a área técnica do órgão e sugeriu supostos conflitos de interesse envolvendo o mercado de capitais.

Na época, o chefe da CVM afirmou a aliados que Barros e outros deputados acionaram uma espécie de tropa de choque do Master, usando como pretexto reportagens publicadas por veículos de mídia que depois se soube terem sido financiados por sócios de Vorcaro.

Assim que assumiu o cargo, o presidente interino, Otto Lobo, tomou uma decisão sem precedentes e sem previsão no regulamento da autarquia e simplesmente anulou o voto de Nascimento em um processo ligado à Ambipar que contrariava frontalmente os interesses do Master e do empresário Nelson Tanure. Segundo a área técnica da CVM, fundos com participação de Tanure e do Master teriam atuado em conjunto com o controlador da Ambipar, Tercio Borlenghi Junior, realizando compras massivas de ações que forçaram uma alta de 863% no valor dos papéis entre junho e agosto de 2024.

A valorização das ações, ainda segundo os técnicos, também ajudou o Banco Master a elevar seu patrimônio. A manobra também teria feito com que a quantidade de ações em circulação no mercado ficasse acima do permitido por lei. Por isso, os técnicos defenderam a realização de uma oferta pública de aquisição (OPA) a todos os acionistas de forma proporcional, o que poderia diminuir a fatia das ações nas mãos de Tanure, do Master e do controlador.

Nascimento foi a favor da oferta. E sua decisão recebeu especial atenção de Filipe Barros, que protocolou em 23 de junho mais um um requerimento de informações ao Ministério da Fazenda, com 11 perguntas bastante detalhadas em que Barros insinua que a CVM pode ter atuado de forma direcionada ao determinar a abertura de uma OPA, ou seja, ao prejudicar os interesses de Tanure e do banco de Vorcaro.

Indagado pela equipe da coluna, o bolsonarista dsse ter sido o primeiro a denunciar as irregularidades na Ambipar e encaminhou à equipe do blog ofícios em que acionou a CVM e a PF em fevereiro de 2025 apontando a disparada no preço das ações e a operação de recompra por parte dos controladores. Sobre o teor do requerimento protocolado quatro meses depois com questionamentos no sentido contrário, declarou que o objetivo era comprovar que a autarquia não agiu com a celeridade devida em comparação com casos semelhantes.

Lobo, por sua vez, foi oficializado no comando da CVM no início deste mês pelo presidente Lula após sabatina no Senado.

Diretor do BC na mira

Meses depois, em 3 de setembro, data em que o BC rejeitou a compra do banco pelo BRB, Barros apresentou um requerimento direcionado ao regulador com diversos questionamentos ao encerramento da liquidação extrajudicial de duas instituições financeiras, o Banco Econômico e o Banco Nacional, que foram comprados pelo BTG.

Todos eram voltados à Diretoria de Organização do Sistema Financeiro e de Resolução (Diorf), comanda à época por Renato Gomes, que liderou a ala do Banco Central contrária à venda da instituição de Vorcaro para a estatal de Brasília. O requerimento foi aprovado três semanas depois.

Gomes era um dos principais defensores da liquidação do Master. A proposta contou com o apoio do então diretor de regulação, Gilneu Vivan, mas não saiu do papel por conta da oposição do diretor de Fiscalização, Aílton Aquino, que defendia a compra do Master pelo BRB.

Gomes, que deixou a cúpula do BC após o término de seu mandato em dezembro passado, foi um dos alvos de influenciadores de direita pagos através do chamado “Projeto DV”, campanha financiada por Daniel Vorcaro para desacreditar o Banco Central e exaltar o Tribunal de Contas da União (TCU) na época em que o relator do caso na corte contábil, Jhonatan de Jesus, ameaçava reverter a liquidação executada pelo regulador e apontava supostas irregularidades no processo.

O “marketing de guerrilha” contratado pelo banqueiro foi estruturado pelo empresário Thiago Miranda, ex-CEO do Portal Léo Dias e dono da Agência MiThi, como contamos no blog.

Miranda foi quem intermediou o contato entre Vorcaro e o presidenciável do PL, Flávio Bolsonaro, ainda em dezembro de 2024 – no mês seguinte à apresentação da proposta que se inspirou na emenda de Ciro – para o financiamento de “Dark Horse”. O filme teve entre seus produtores Eduardo Bolsonaro, aliado próximo de Barros.

Nós perguntamos ao deputado do Paraná se as iniciativas de seu mandato e da CREDN associadas ao Master foram discutidas com os filhos 01 e 03 de Jair Bolsonaro. Ele negou a hipótese e disse manter contato com Eduardo sobre outros assuntos, tendo visitado o ex-colega de Parlamento nos EUA em agenda oficial.

Barros assumiu a comissão no lugar de Eduardo no início de 2025. O filho 03 foi indicado pelo PL para presidir o colegiado em acordo com o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), mas os planos mudaram depois que Eduardo anunciou no fim de março do ano passado seu autoexílio nos Estados Unidos e a consequente licença do mandato.

Na época, em uma live nas redes sociais, o então deputado afirmou que manteria o poder sobre a pauta da CREDN por meio do aliado:

“Eu acho que o Filipe Barros vai fazer uma grande presidência da Comissão de Relações Exteriores, é uma pessoa próxima. Para quem acha que eu não estar sentado naquela cadeira, eu perdi o poder da CREDN, negativo, tá?”, declarou o filho de Jair Bolsonaro.

“Tenho o telefone dele, tenho falado com ele, e Deus quiser ele vai colocar adiante as mesmas pautas que eu ia botar”.

O que diz Barros

O deputado Filipe Barros nega qualquer irregularidade nas ações de seu mandato. “Abro minhas contas bancárias e meu imposto de renda e o da minha esposa e da minha família”, disse à equipe da coluna. “Nunca recebi mesada de Vorcaro”.

Questionado sobre o que o motivou a atuar pela ampliação do Fundo Garantidor de Crédito e a escrutinar processos da CVM ligados ao Master, além dos negócios do BTG, concorrente do banco, o parlamentar do PL disse ter interesse na regulação do mercado financeiro e de capitais e que passou a estudar o assunto por ser contra o modelo atual de autonomia do Banco Central, aprovado no governo Bolsonaro.

O parlamentar também defendeu a discussão dos assuntos no escopo da CREDN: “Não é possível dissociar hoje a soberania nacional da econômica. O fato dos EUA usarem sanções econômicas para fazerem prevalecer suas vontades é a prova cabal disso”.

Em relação ao convite do presidente da CVM, João Pedro Nascimento, o deputado Filipe Barros declarou à equipe da coluna que mantinha boa relação e diálogo constante com o dirigente da autarquia. Afirmou ainda que o próprio Nascimento escolheu a data da audiência e que, na ocasião, teria confidenciado antes da reunião a intenção de deixar o comando do órgão.

“Naquela oportunidade ele comentou que estava pensando em sair da CVM, que estava muito pesado para a família dele, perdendo dinheiro e sem diálogo com o Ministério da Fazenda”, relatou.

Ainda sobre o requerimento que questionou a diretoria de Renato Gomes no Banco Central, Barros alegou ter tomado conhecimento sobre as liquidações através da imprensa e que viu indícios de irregularidades.

“Me parece que existia ali dentro do BC os amigos dos reis, porque o BTG compra um monte de coisa que da noite para o dia passa a ter valores extraordinários e supervalorizações, assim como no caso da Ambipar”.

 

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