6:24Sigilo para a jogatina

por Elio Gaspari, na FSP

Mordaça não anda sozinha. Sigilo de cem anos envolvendo licenças para o funcionamento de casas de jogos poderia ter justificativas, mas, com explicações mambembes, deixa um cheiro de queimado

No domingo, o repórter Vinícius Valfré revelou que o Ministério da Fazenda impôs um sigilo de até cem anos aos documentos que tratam da autorização para o funcionamento de casas de apostas no Brasil. A mordaça excluiu até a hipótese de se liberar somente os trechos que não contivessem informações sensíveis.

Na segunda-feira, o ministro Dario Durigan informou que a medida foi revogada e será criado um grupo de trabalho para examinar o caso, dando “ampla transparência” aos processos. Tudo bem, mas mordaça, como o jabuti, não sobe em árvore, alguém a colocou lá. Para atender a qual finalidade? Falta saber.

São cerca de 25 mil documentos, muitos deles triviais. No lote, estão algumas notas técnicas produzidas pela máquina do governo. Lê-los poderá jogar alguma luz sobre a liberação dessas casas de apostas.

A mais alta autoridade que tratou do assunto foi Lula e ele é contra, mas, como já explicou, “não é dono do Brasil”.

Num ano eleitoral em que o governo brasileiro bate cabeça com o americano por causa da classificação do Comando Vermelho e o Primeiro Comando da Capital, não poderia haver presente melhor para os adversários do governo do que um sigilo nessa área.

O governo finge que é contra a jogatina, mas desde 2025 concedeu 85 licenças, somando 187 sites autorizados para operar apostas eletrônicas, aquelas que Lula condena.

O repórter Pedro S. Teixeira mostrou que a jogatina movimentou R$ 4,5 bilhões nos quatro primeiros meses deste ano.

Semelhante ervanário equivale ao dobro do valor das apostas no mesmo período do ano passado. Mais: o governo arrecadou com as apostas um valor próximo ao que morde com o tabaco e com o agronegócio.

Existem casas de apostas que seguem as normas e existem braços do crime organizado infiltrados na jogatina. Quando o Ministério da Fazenda tentou impor um sigilo de cem anos nos processos de venda das outorgas, quem ganharia? As que estão contaminadas pelo crime, pois elas detestam falar dos seus negócios.

A porteira da jogatina foi aberta no governo Bolsonaro, que tinha planos mirabolantes para a construção de cassinos (podem chamá-los de resorts). Um deles poderia ficar dentro da baía da Guanabara. Lula 3.0, movido pela febre arrecadatória do ministro Fernando Haddad, escancarou a venda de outorgas e em três anos já arrecadou com as apostas algo como R$ 30 bilhões. Para se ver o tamanho desse dinheiro, basta lembrar que a falecida “taxa das blusinhas” gerou desconforto e impopularidade, rendendo apenas R$ 8,2 bilhões. A jogatina tem uma certa popularidade (para quem ganha) e suas consequências vão para os consultórios médicos e para as cruéis estatísticas do aumento do endividamento das famílias.

Sigilo de até cem anos envolvendo licenças para o funcionamento de casas de jogos poderia ter algumas justificativas, mas a seco, com explicações mambembes, deixou um cheiro de queimado na mordaça.

Até domingo era necessário acabar com embargo centenário. Desativado, é preciso saber quem o pôs lá, porque virão outros. O mundo da jogatina tem novidades para dar e vender.

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