por Lea Oksenberg, no Vigília Comunica
Dizem que o mundo é infinito, mas a paciência do Comandante Xylos tinha limites bem definidos — mais especificamente, o contorno da Região Metropolitana de Curitiba.
Naquela noite de maio, a missão em Campo Largo era simples, quase burocrática: um sobrevoo imperceptível sobre os morros, algumas luzes pulsantes para testar os sensores e, quem sabe, uma sondagem rápida na fauna local. O problema é que Xylos não consultou a previsão do tempo.
Assim que a nave cruzou a atmosfera, o painel não acusou caças da Força Aérea ou mísseis terráqueos. Acusou o bom e velho nevoeiro paranaense, aquela cortina densa que engole o horizonte e transforma tecnologia espacial em palpite cego.
— Visibilidade zero, Comandante — avisou o copiloto, tentando limpar o visor com a manga do uniforme. — Sete graus lá fora. Sensação de três. E uma umidade que entra nos ossos.
Xylos sentiu um arrepio. Ligou os faróis de milha do disco voador — os mesmos clarões que os humanos lá embaixo juravam ser um mistério ufológico. Na verdade, era só um alienígena perdido tentando achar a entrada da Rodovia do Café.
Na terra firme, a internet fazia o seu papel. Celular em riste, o influenciador local transmitia o “primeiro contato” para milhares de pessoas. Nos comentários da live, o de sempre: teorias do fim do mundo misturadas com piadas sobre o preço do pinhão e perguntas se o ET aceitava Pix. Enquanto ufólogos sérios preparavam telescópios e cálculos complexos para decifrar o clarão nos morros, a realidade a bordo era dramática. O motor de arranque havia congelado.
Xylos olhou para a névoa que batia no para-brisa, sentiu o vento encanado da RMC e tomou a única decisão logicamente possível para uma mente superior.
— Apague tudo. Vamos abortar. Esse lugar é hostil demais, as pessoas usam três casacos dentro de casa e a neblina não deixa nem a gente invadir em paz. Vamos voltar para Marte, que lá pelo menos é seco.
A nave sumiu na escuridão, deixando para trás o vídeo viral e um grupo de estudiosos decifrando o significado cósmico do que foi, no fundo, apenas um pisca-alerta espacial. Campo Largo seguiu salva, protegida pelo seu escudo mais antigo e infalível: o inverno que estava por vir.
Minha paixão há de brilhar na noite
No céu de uma cidade do interior
Como um objeto não identificado
(Não Identificado – Caetano Veloso)