por Carlos Castelo
Certos jogadores passam pelo campo. Outros passam pela vida da gente. Leivinha pertence à segunda categoria.
Na adolescência, quando o mundo ainda era um lugar provisório e os heróis moravam a poucos quilômetros de casa, eu o via entrar em campo com aquela leveza que parecia desafiar a gravidade. Tinha algo de pássaro em seus movimentos.
Os cronistas esportivos falavam de técnica, oportunismo, visão de jogo. Tudo isso era verdade. Mas me parece insuficiente. Estatísticas servem para analisar gols. Não servem para explicar encantamentos.
Leivinha conhecia atalhos secretos dentro do gramado. A bola vinha alta e ele já estava no lugar onde ela iria cair. O cruzamento surgia de repente e, antes que os zagueiros percebessem, sua cabeça encontrava a bola com a naturalidade de um encontro marcado.
Num tempo em que muitos atacantes avançavam como tanques de guerra, Leivinha era um poeta infiltrado entre os operários da bola. Talvez por isso tenha permanecido tão vivo na memória.
Os jogadores que admiramos quando adolescentes não envelhecem conosco. Ficam guardados numa espécie de cápsula. Continuam correndo para sempre em tardes de domingo, sob céus que já não existem.
Morre o homem. Mas o jogador que habitava a imaginação do menino continua intacto.
A notícia de sua morte me fez perceber algo curioso: uma parte da minha adolescência também recebeu o apito final.
Não apenas porque ele partiu. Mas porque certos ídolos funcionam como marcos geográficos da alma. Quando desaparecem, somos obrigados a revisitar o território onde os conhecemos.
Voltei então às arquibancadas da memória. Vi novamente o velho Palmeiras. Ouvi o rumor da torcida antes do jogo. Senti o cheiro do amendoim, da grama cortada, das tardes que eram intermináveis. E lá estava ele outra vez, usando a camisa verde que, aos meus olhos de garoto, tinha algo de uniforme mitológico.
Leivinha.
Nome de craque e de passarinho.
Hoje percebo que admirar alguém no futebol é uma forma disfarçada de aprender a sonhar. O adolescente que eu fui não queria apenas fazer gols nas peladas. Queria possuir aquela elegância, aquela facilidade diante das dificuldades, a capacidade de surgir onde ninguém esperava.
Os anos passaram. Vieram outros atacantes, outros campeonatos, outras glórias e decepções. Mas alguns jogadores não pertencem ao tempo, vivem mais na memória afetiva. E ela tem regras próprias. Não respeita certidões de óbito.
Por isso, enquanto os jornais registram que Leivinha morreu, alguma coisa dentro de mim insiste em desmenti-los.
Porque nesse exato instante ele continua correndo por um campo verde como a Academia, recebendo um cruzamento impossível, antecipando-se aos zagueiros e cabeceando para o gol.
E um menino, perdido em alguma tarde distante da década de 70, levanta os braços na arquibancada.
Esse menino ainda sou eu. E esse gol ainda não acabou de acontecer.
(Publicado no Crônicas da Copa)