por Carlos Castelo
No passado, para ser cronista, bastava ter uma máquina de escrever, algumas neuroses, e um prazo. Hoje é preciso ter um estúdio no quarto.
Descobri isso ao conversar com um jovem colega. Perguntei quantas colunas ele escrevia por semana.
— Depende.
— Depende de quê?
— Do alcance.
Achei estranho. Quando comecei, uma coluna dependia de assunto. Muitas vezes, nem isso. Havia cronistas que conseguiam batucar oitocentas palavras sobre uma colher de chá e ainda terminar com uma reflexão sobre a condição humana.
Hoje, a colher de chá precisa ter perfil no Instagram.
O cronista moderno não escreve mais uma coluna. Ele lança uma operação militar.
Primeiro vem o teaser da coluna. Em seguida, o vídeo anunciando o teaser. Na sequência, o corte do vídeo anunciando o teaser. Aí vem o podcast comentando a repercussão do teaser. Então, a live reagindo aos comentários do podcast. Por fim, a newsletter explicando os bastidores da live.
A coluna propriamente dita entra em algum ponto desse processo, mas ninguém sabe exatamente quando, nem onde.
Outro dia encontrei um cronista exausto.
— Muito trabalho
— Nem me fale.
— Escrevendo muito?
— Não. Divulgando que vou escrever.
Parece piada, mas é uma profissão nova. O sujeito acorda às seis para produzir conteúdo sobre o conteúdo que ainda produzirá. Às sete participa de uma mesa-redonda sobre o futuro da escrita. Às oito grava um vídeo ensinando técnicas de produtividade. Às nove publica uma foto contemplativa olhando pela janela com a legenda:
“Reflexões importantes, em breve.”
Às dez ainda não refletiu nada, mas o importante é manter o público informado.
Os cronistas-raiz conviviam com um editor. Os cronistas 3.0 convivem com gráficos. Antes, alguém dizia:
— O texto ficou bom.
Agora alguém informa:
— Você aumentou em 12% a retenção da audiência entre homens de 35 a 44 anos interessados em jardinagem e crise existencial.
É um elogio diferente.
O mais curioso é que o cronista passou a ser uma espécie de mestre de cerimônias da própria existência.
Ele não apenas escreve. Ele apresenta o fato de que está escrevendo. Comenta o processo de escrita. Analisa o impacto do texto. Modera um debate sobre o que produziu. E encerra agradecendo aos patrocinadores pela experiência de ter postado.
Por vezes, imagino o que aconteceria se Rubem Braga aparecesse numa redação de hoje.
Alguém lhe entregaria um microfone.
— Rubem, precisamos de três reels, um podcast, um carrossel e uma live explicando sua crônica sobre o sabiá.
Ele acenderia um cigarro. Olharia para o pássaro. Miraria o assessor. E provavelmente escolheria conversar com o sabiá. Porque o bichinho, pelo menos, ainda não pede engajamento.
E talvez seja essa a grande tragédia do cronista 3.0. Ele continua comentando sobre a vida. Só não encontra mais tempo para vivê-la.
(Publicado no Rascunho)