9:26O colecionador de decepções

por Carlos Castelo

Minha mãe costumava dizer que eu larguei seu leite com a mesma expressão de um crítico gastronômico desapontado. Segundo ela, depois da terceira mamada fiquei olhando pro nada, meio blasé, como quem pensa: “É isso? Todo esse marketing pra isso?”

Eu mal descobria uma paixão e já começava a bocejar para ela. Minha vocação sempre foi abandonar vocações.

A papinha, por exemplo. Houve uma fase em que eu acreditava que a humanidade tinha atingido o auge civilizatório ao transformar cenoura em pasta morna. Eu vibrava com aquilo. Abóbora amassada? Magnífico. Beterraba? Audacioso. Banana esmagada? Uma experiência sensorial.

Mas então percebi uma limitação naquele prato. Tudo tinha gosto de “coisa esmagada”. Era um universo sem crocância. Parti para alimentos sólidos como quem migra do cinema mudo para o Technicolor.

Descobri o bife. O arroz com feijão. Achei extraordinário mastigar. Passei semanas fascinado pela ideia de dentes. Eu parecia dizer à mesa: “nossa, a comida quebra!”

Até o dia em que percebi que adultos mastigavam para sempre. Café da manhã, almoço, jantar. Uma repetição sem clímax. Comer começou a parecer burocracia biológica.

Foi então que encontrei a arte.

Na escola, mergulhei na massinha de modelar com fervor. Eu fazia cinzeiros tortos e criaturas abstratas que minha professora insistia em chamar de elefante. Durante meses, considerei seriamente me tornar um escultor de massinha profissional, até descobrir uma dura realidade do mercado: esculturas de massinha derretem no calor.

Migrei para o desenho. Ah, o desenho. Houve um período em que eu tinha certeza de que minha missão na Terra era sombrear montanhas com lápis 2B.

Mas a arte também começou a me cansar. Todo artista que eu admirava era deprimido ou francês. Às vezes, os dois. Resolvi procurar algo mais pragmático.

Fui estudar arquitetura.

Passei anos desenhando prédios futuristas que pareciam grampeadores. Fiz projetos de lojas, shoppings, edifícios comerciais. Só que, depois de um tempo, tudo aquilo perdeu o brilho. Eu olhava para um prédio e pensava: “No fundo é só uma caixa onde colocam gente.”

Veio a fase espiritual.

Mergulhei na religiosidade com entusiasmo de recém-convertido. Li sobre metafísica, frequentei retiros, tentei meditar. Passei anos buscando respostas transcendentais. Gostava das pessoas que falavam pausadamente, aquelas que pareciam ter acesso prioritário ao universo.

Mas também comecei a suspeitar de certas coisas. Sempre que alguém dizia “o ego precisa morrer”, normalmente estava vendendo um curso de quatro mil reais.

Virei ateu.

E foi curioso porque o ateísmo me deu uma paz temporária. Não havia mais culpa metafísica, pecado, karma nem Mercúrio retrógrado. O universo era um grande acidente cósmico e pronto. Aquilo, de certa forma, era relaxante.

Mas logo surgiu outro problema: se nada fazia sentido, então nem o ateísmo fazia sentido.

Hoje continuo minha busca. Não atrás da verdade absoluta (isso dá um trabalhão), mas de alguma coisa que me entusiasme por mais de seis meses.

Dias atrás comecei a fazer pão artesanal.

Confesso que estou otimista.

(Publicado no Estadão)
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