por Lea Oksenberg, no Vigilia Comunica
Se existe um lugar onde o Brasil se encontra e se desentende, esse lugar é o terceiro andar da Secretaria de Assuntos Importantes – SAAI.
De um lado da divisória de compensado ficava a sala do Dr. Jefferson, o chefe. Era um luxo: frigobar cheio de água importada e refrigerante, sofá macio e um ar-condicionado tão forte que ele trabalhava de terno e cachecol em pleno verão. Do outro lado, ficava o “chão de fábrica”: dez funcionários espremidos, ventiladores barulhentos e um calor de rachar. Ali, quem estava no abafado trabalhava por dez; quem estava no gelo assinava o papel e levava a fama.
O drama começou numa terça-feira de 40 graus. O sistema de computadores caiu de vez. Sem internet, a única solução para liberar o atendimento era usar o carimbo oficial da repartição. O problema? O Dr. Jefferson, com medo de que os funcionários estragassem a “joia da coroa”, trancou o carimbo na gaveta e saiu para um almoço de três horas.
A fila do povo do lado de fora já dava a volta no quarteirão. O calor estava tão grande que a dona Lindalva, a funcionária mais antiga da repartição, quase desmaiou.
— Se a gente não carimbar isso hoje, o prazo vence e a culpa é nossa — avisou Marcinho, o estagiário que resolvia tudo.
Marcinho não pensou duas vezes. Pegou um clipe de papel e, com a agilidade de quem precisa garantir o passe do ônibus, abriu a porta da sala do chefe.
Entrar ali foi como viajar para a Suíça. O choque térmico foi tão gostoso que, em dois minutos, os dez funcionários abandonaram o calorão e se mudaram com papelada e tudo para a sala da chefia.
Ligaram um rádio de pilha bem baixinho no “Samba do Trabalhador”, do Martinho da Vila, e no ar-condicionado o trabalho rendeu que foi uma beleza. Lindalva carimbava no ritmo do pandeiro, Marcinho organizava as pastas e o grupo ainda achou um pote de biscoitos amanteigados que o chefe escondia no armário.
A festa acabou quando a maçaneta girou.
Dr. Jefferson entrou, vermelho do sol da rua e palitando os dentes. Quando abriu a porta, quase caiu para trás: Marcinho estava na cadeira principal, Lindalva usava o cachecol do chefe para se proteger do frio e a pilha de serviço estava toda zerada.
O chefe respirou fundo, pronto para soltar os cachorros. Mas, antes que abrisse a boca, o relógio bateu cinco da tarde. No serviço público, o horário de saída é sagrado.
O pessoal levantou junto. Lindalva tirou o cachecol, Marcinho desligou o rádio, guardou o carimbo na gaveta e cada um pegou sua bolsa.
— Tudo resolvido, doutor! — disse Marcinho, dando um tchauzinho. — Amanhã a gente volta para o nosso calor. Boa noite!
Deixaram o chefe sozinho na sala gelada, olhando para o pote de biscoitos vazio. No dia seguinte, o Dr. Jefferson colocou uma fechadura nova na porta. Mas a lição ficou: por aqui, as coisas só andam quando quem está embaixo consegue, nem que seja por uma tarde, respirar o mesmo ar de quem está em cima.
A diferença entre existir e viver é de dez salários mínimos. (Millôr Fernandes)