por Carlos Castelo
Em 1942, enquanto o mundo aprendia novas maneiras de guerrear, meu pai tinha treze anos e talvez ainda acreditasse que a vida fosse apenas aquele calor imóvel de Teresina. Ou o rio Poty correndo com preguiça e o movimento do Grande Hotel, onde meu avô recebia viajantes abrigando pedaços dispersos de outras lugares.
A Segunda Grande Guerra passou por ali.
Não com bombas ou trincheiras. Surgiu em caminhões empoeirados, jipes verdes, homens altos mascando chiclete e fumando sem parar. Americanos. Soldados atravessando o Nordeste brasileiro rumo a Parnamirim Field, a cidade-base que virou um trampolim entre continentes, um pedaço dos Estados Unidos plantado no Rio Grande do Norte. Natal era quase África. E Teresina, no meio do caminho, tornou-se pouso de uma guerra estrangeira.
Imagino meu avô observando aquilo tudo da porta do seu hotel. Talvez sem compreender direito o mapa do conflito, mas entendendo o movimento dos homens cansados. Donos de hotel sabem ler fadiga. Têm o poder de distinguir os que viajam por escolha e os que vêm por necessidade.
Os soldados chegavam cobertos de estrada. Alguns traziam nos bolsos fotografias de namoradas sorrindo em jardins verdes. Outros guardavam o silêncio dos que já haviam entendido que talvez não voltassem.
E havia meu pai.
Um menino circulando entre malas, bandejas e vozes em inglês. Um garoto do Piauí escutando palavras que pareciam saídas de um rádio com defeito: hello, boy, chocolate, thank you.
Talvez ele não soubesse, mas estava vendo o século entrar pela porta daquele hotel.
E então aconteceu o pequeno milagre: um soldado lhe deu uma barra de chocolate.
Hoje, isso parece banal. Chocolate mora em supermercados, lojas de conveniência, aplicativos. Mas, naquele Brasil profundo, um pedaço de chocolate ianque tinha algo de mitológico. Era quase um artefato vindo de Hollywood.
Meu pai experimentou pela primeira vez o gosto do mundo.
Talvez tenha estranhado. Demorado para morder. Pode ser que tenha guardado o papel metálico como lembrança. As memórias da infância quase sempre cabem na palma da mão.
E junto com a barra veio também o inglês arranhado. Palavras aprendidas no corredor do hotel, no improviso, entre um cafezinho servido e uma mala carregada. Um idioma recolhido aos trancos e barrancos.
A guerra costuma entrar para a História pelos generais, batalhas, tratados. Mas ela também sobrevive nessas cenas laterais: uma criança provando o improvável; um avô abrindo as portas do estabelecimento para homens que atravessavam a América do Sul; soldados anônimos descansando algumas horas antes de seguir rumo ao Atlântico, à África, à morte.
Enquanto Churchill fazia discursos e Roosevelt desenhava estratégias, talvez meu pai estivesse apenas tentando repetir corretamente a palavra “world”. E há algo de muito humano nisso.
Porque, no fim, a História nem sempre permanece na memória pelo esboroar da artilharia. O que mais fica é o instante mínimo: o gosto inesperado de cacau, o sotaque estrangeiro ecoando pelos corredores do Grande Hotel, a sensação de que a Terra inteira, por algumas noites, dormiu em Teresina.
(Publicado no E+)