por Lea Oksenberg, no Vigília Comunica
Há quem passe a vida inteira tentando decifrar a própria identidade, mas, no meu caso, o Rio de Janeiro das décadas de sessenta e setenta resolveu me emprestar rostos ilustres para carregar no espelho.
Tudo começou no dia em que a irmã de uma amiga olhou bem para mim e decretou, com todas as letras: “Você é a cara da Nara”. Não fiquei com cara de alface, fiquei foi surpresa. Como não saberia quem era a Nara Leão? Eu tinha em casa aquele compacto simples histórico e sabia as músicas de cor. De um lado, a doçura de “A Banda”; do outro, as canções marcantes daquela época. Eu cantava junto, mas nunca tinha me imaginado no lugar da dona daquela voz.
Para completar o cenário, ela achava que tinha de ir a um programa da TV Rio e dublar a musa da Bossa Nova. E fui. Nem sabia direito mexer num violão, mas foi tamanho o meu sucesso que o figura já quis me contratar. Claro que contei pra minha mãe e ela imediatamente cortou meu barato.
O tempo passou, eu cresci e virei quase uma mulher — imatura, é verdade, mas pronta para a vida que pulsava na Zona Sul. Foi a minha fase camaleão. De cabelos compridos, eu batia ponto no Number One e me exibia pra caramba. Tinha todos os motivos do mundo para isso: cruzava a porta da boate me achando a própria Danuza Leão, com aquela aura de sofisticação que dominava a noite de Ipanema.
Mas camaleão que se preza não para na mesma cor por muito tempo. Um belo dia, resolvi radicalizar e passei a tesoura nos fios compridos. Quando me olhei de novo, a Danuza tinha ficado para trás e eu tinha virado a cara da Pinky Wainer, com toda a vanguarda e atitude que aquele corte curtinho carregava. Um absurdo de transição, se a gente parar para pensar.
Olhando para trás, vejo que passear pelas feições de mulheres tão marcantes não era falta de identidade. Era só o meu jeito de viver o Rio de Janeiro na sua melhor forma: mudando de pele, de cabelo e de trilha sonora, enquanto descobria quem eu era de verdade.
(Podem me prender, podem me bater, que eu não mudo de opinião — Opinião – Zé Keti / Nara Leão)