6:17Mário de Andrade e a vergonha de ser brasileiro

poir Mario Sergio Conti, na FSP

O nordestinismo atrasadão e a invencionice sudestina vistos pelo turista aprendiz. Editora traz de volta as 70 crônicas de viagens publicadas nos anos 1970

Faz quase um século que Mário de Andrade percorreu o Nordeste de alto a baixo. Apesar das mudanças desde então, suas observações atingem em cheio o presente. Uma delas é simples como um soco: “Que miséria, e quanta gente sofrendo”.

Outra, autoindulgente, flagra a má consciência de um paulista progressista: “Tenho vergonha de ser brasileiro. Mas estou satisfeito de viver no Brasil. O Brasil é feio mas gostoso”. A miséria tem lá sua graça para quem não é miserável. Como disse Brás Cubas, o cínico-mor de Machado: “Antes cair das nuvens que de um terceiro andar”.

Mário de Andrade foi à amazônia em 1927, chegando à Bolívia e ao Peru. Perambulou pelo Nordeste meses depois, indo de Igarassu a Redinha, de Macau a Catolé do Rocha. Apelidou as viagens de etnográficas porque estudava cantorias e crenças dos nativos. O que viu e ouviu serviu de matéria-prima para sua obra capital, “Macunaíma”.

Fez um empréstimo com Paulo Prado para ir à amazônia e pegou carona numa caravana cacifada por Olívia Guedes Penteado –filhotes de cafeicultores quatrocentões e mecenas do modernismo. Foi ao Nordeste por conta própria, e como ainda por cima tinha de saldar a dívida com Paulo Prado, escreveu crônicas para o Diário Nacional, batizando sua coluna de “Turista Aprendiz”.

Contou numa carta a aflição de escrevê-las: “Só a empreitada de mandar o ‘Turista Aprendiz’ pro Diário Nacional, embora tudo besteira escrita no joelho, às vezes nem releio, só pra ganhar os 400 paus, um artiguete diário. Além disso, viajando fico burro. A inteligência não reage, fica passiva, só recebendo”. É dura a vida dos colunistas chamados Mario.

As 70 crônicas viraram livro 30 anos depois da sua morte, em 1945. Estão de volta agora numa edição caprichada da casa matinas, organizada por André Botelho e Onildo Correa: “Nordestes: Diário de Viagem (1928-1929)”. O livro mantém a grafia e a sintaxe do poeta, que privilegiava a oralidade popular. Daí milhor no lugar de melhor, chacra em vez de chácara.

O título está no plural porque, para Mário de Andrade, o Nordeste singular é invencionice sudestina. “Nordestes” comprova que as salinas paraibanas não têm nada a ver com as “dunas e dunas de cajus” do semiárido potiguar. Que as feitiçarias africanas diferem das ameríndias: macumba é uma coisa; pajelança, outra. Que as “literatices heroicas” de “Os Sertões”, de Euclides da Cunha, são uma “falsificação hedionda”.

O turista aprendiz não exagerou ao dizer que rabiscava tolices no joelho —nas coxas, se diria hoje— e que não as relia. Só o desleixo, coligado com a ironia e o afã de chocar, justifica boutades do tipo “o nordestino é prolífico. Dez meses de seca anual. Não tem o que fazer, faz filho”; os nordestinos “falam quasi como os índios de José de Alencar”; a carioca, “por mais que se cubra, está sempre nua”.

É sarcástico consigo mesmo. “Fico eu, elegantisado pelo tédio, capaz de wildismos subtis”, diz, nivelando sua verve à de Oscar Wilde. Segundo os editores de “Nordeste”, Mário de Andrade teve uma “atração homoerótica” pelo sambista Chico Antônio. O rapaz de “voz quente” e “olhos lindos”, escreve, “vale uma dúzia de Carusos”. Lamenta ter de voltar às “chiques dissonâncias dos modernos” de São Paulo.

O aprendiz de etnógrafo conta que, depois de comer duas mangas, pão assado embebido em leite de coco e tomar uma xícara de café, “o dia começa tão satisfeito que nem um pitiguari cantando”. E se supera ao expor uma “concepção marxista da história do caju” que põe nos píncaros dos prazeres culinários a fruta que “morde a boca da gente, vai nos devorando por dentro, diminui a suficiência individualista do ser”.

Não poupa nem as vítimas da miséria: “O que eu vejo é um nordestinismo atrasadão, assoberbante, às vezes ridiculamente vaidoso”. Ao se indignar com a incúria do governo, barbariza: “Não é possível se pregar revolução nesse país. O que nós carecemos é dum cangaço secreto, matando friamente fulano que é gatuno, fulano que é burro, fulano que é abúlico”.

A indignação é tão aguda que cala Mário de Andrade: “Tenho feito e continuarei fazendo muita literatura. Aqui não. Repugna minha sinceridade de homem fazer literatura diante desta monstruosidade de grandezas que é a seca sertaneja no Nordeste. Que miséria e quanta gente sofrendo. É melhor parar”.

Serviço: os livros da casa matinas não frequentam livrarias. Podem ser adquiridos no site da editora (casamatinas.com.br), que os envia à freguesia.

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