por Bernardo Magalhães, na FSP
Modernos canais de influência mudaram o preço de manipulação no debate político. Hoje há maneiras de comprar comunicação com o público com muito menos dinheiro
Quanto custa um senador? Quanto custa um juiz? Quanto custa um influencer ou um canal de televisão?
Dados sobre corrupção são difíceis de encontrar. Há, porém, exceções. Uma das mais conhecidas e estudadas é o caso do Peru nos anos 1990.
Durante o governo de Alberto Fujimori, Vladimiro Montesinos, chefe do Serviço Nacional de Inteligência, era o encarregado de usar dinheiro e força para conseguir apoio de deputados, juízes e imprensa.
Montesinos gravava vídeos e escrevia contratos para formalizar seus atos de corrupção. Usando esses vídeos e documentos, John McMillan e Pablo Zoido publicaram em 2004 um bem conhecido estudo.
Um dos principais resultados do trabalho é que o suborno aos (poucos) canais de televisão custava cerca de dez vezes o total pago aos (vários) deputados e cerca de dez vezes o total pago aos (vários) juizes.
Eles concluem que a imprensa livre teria um grande poder de frear um governo corrupto e autoritário, por isso custava tão caro.
O caso de Daniel Vorcaro é diferente do de Montesinos em muitos aspectos. Ainda assim, chama a atenção a diferença nos preços.
Vorcaro pagou muito a políticos, juízes e influencers. Cabe à Justiça determinar se há provas de atos ilícitos e corrupção. Cabe a nós supor que juízes e políticos nas altas rodas não recebem milhões de reais de alguém por pura inocência e conseguiriam descobrir, com poucos telefonemas, se o sujeito oferecendo dinheiro têm inúmeros negócios ilícitos.
Vorcaro pagou R$ 80 milhões ao escritório da esposa de Alexandre de Moraes, em um contrato que previa o pagamento de R$ 129 milhões em três anos. O investimento no resort da família de Dias Toffoli está na casa das dezenas de milhões de reais.
Flávio Bolsonaro receberia um total de R$ 134 milhões de Vorcaro —aparentemente R$ 61 milhões foram pagos. Ciro Nogueira recebia alguns milhões por ano. Antonio Rueda levou cerca de R$ 6 milhões.
A lista de consultores do Banco Master inclui Henrique Meirelles, Guido Mantega, ACM Neto —todos mais conhecidos pelas ligações políticas que pelo conhecimento técnico. Foram alguns milhões para cada um desses.
E a mídia?
Segundo reportagem da Folha, a Polícia Federal identificou cerca de 40 influencers que teriam recebido um total de R$ 8 milhões de Vorcaro (em grande parte para atacar a gestão de Renato Gomes na diretoria do Banco Central).
O valor de R$ 8 milhões é elevado, mas é uma fração ínfima do que foi pago, direta ou indiretamente, a juízes e políticos.
Claro, são apenas influencers, não são grandes redes de TV. Mas o ponto é justamente esse. Hoje há maneiras muito baratas de comprar comunicação com o público.
O regime de Fujimori caiu quando o canal de TV que não recebia propinas divulgou vídeos de Montesinos subornando deputados e juízes. A imprensa era, de fato, crucial.
Hoje será que cairia? Não seria difícil nem caro contratar um batalhão de influencers digitais para atacar opositores, repetir desculpas esfarrapadas e criar uma sensação de que não há nada (tão) errado.
Montesinos pagava caro para esconder a verdade do público. Hoje há outros meios de fazer isso e o preço de esconder a verdade caiu. Com isso, caem também algumas barreiras contra o autoritarismo e a corrupção.
“A lista de consultores do Banco Master inclui Henrique Meirelles, Guido Mantega, ACM Neto” – ESQUECEU O LEWANDOWSKI, então MINISTRO do lule. Será que o colunista esqueceu de verdade ou foi influenciado p/ esquecer tal pessoa?
Corre de ganso … com certeza quem recebeu sabe o significado.
Simples assim.