por Carlos Castelo
O Museu do Negacionismo anunciou sua programação de maio. A diretoria, reunida em coletiva, fez questão de esclarecer que nada ali pretende negar a realidade: apenas corrigi-la, como quem ajusta um quadro torto com uma marreta.
A grande atração do mês é a mostra de cinema “O mundo como deveria ter sido”, com filmes cuidadosamente editados para remover qualquer traço de diversidade, nuance ou contradição. Em um deles, por exemplo, todos os personagens são iguais, pensam igual e terminam felizes por isso. O que, segundo o curador, “finalmente resolve o problema do conflito narrativo”.
No teatro, a temporada traz peças anti-LGBT encenadas por integrantes dos Calvos do ABCD, grupo que acredita que catarse grega é quando alguém sai sangrando da plateia”. A direção do museu garante que se trata de um exercício de liberdade artística, desde que a liberdade seja previamente aprovada pelo conselho do museu.
Para os amantes da reflexão profunda, o simpósio “A importância do macho alfa nas sociedades ocidentais” promete debates acalorados entre palestrantes que nunca foram interrompidos na vida. Haverá mesas-redondas (embora sem mulheres, por questões de coerência temática) e oficinas práticas sobre como interromper interlocutoras com segurança e convicção.
Na ala de artes visuais, destaca-se a aguardada Mostra de Fotografia Branca. Nela, fotografias em preto e branco são exibidas apenas pelo seu lado branco, “eliminando ruídos desnecessários”, como explicou o curador. Visitantes mais atentos poderão notar a ausência de qualquer imagem, o que, segundo o catálogo, é “um convite à contemplação do nad: um nada muito bem selecionado”.
Outra novidade é a exposição interativa “Terraplanismo: horizontes sem limites”. Nela, o público pode caminhar sobre uma maquete plana do planeta e experimentar a sensação reconfortante de nunca cair; afinal, as bordas foram convenientemente ignoradas. Ao final do percurso, há um espelho onde o visitante pode confirmar que está no centro de tudo, posição privilegiada que o museu faz questão de preservar.
Para o público infantil, a programação inclui oficinas educativas como “Brincando de negar”, onde crianças aprendem a discordar de fatos reais com base em opinião, desenvolvendo desde cedo habilidades essenciais para a vida adulta contemporânea. Há também a contação de histórias “Era uma vez um fato alternativo”, em que os finais são sempre ajustados para não contrariar ninguém. Exceto a realidade.
Encerrando o mês, o museu promove o evento “Noite da Verdade Opcional”, um baile de máscaras onde cada convidado escolhe sua própria versão dos acontecimentos e dança ao som de músicas que nunca existiram, mas que todos juram conhecer.
Ao final da visita, o público sai com a estranha sensação de que algo ficou faltando. Mas não se preocupe: é apenas a realidade.
(Publicado na Fórum)