por Carlos Castelo
Sempre achei a tuba um instrumento injustiçado. Pouquíssimos compositores escrevem partituras para ela. Ninguém termina um relacionamento por causa de um tubista. Foi por isso que decidi aprender esse instrumento.
A ideia me ocorreu ouvindo uma gravação do Tuba Skinny. Lá estava ela, firme, segurando o mundo enquanto trompetes e clarinetes se exibiam como adolescentes em festa de quinze anos. Minha preferida, não. A tuba trabalhava.
Pensei: é isso. Chega de instrumentos vaidosos. Quero ser a base. Comprei uma.
A primeira surpresa foi logística. A tuba não cabe em elevadores convencionais, a menos que você e ela estejam dispostos a um relacionamento íntimo. Subimos juntos, espremidos, eu pedindo desculpas e ela emitindo pequenos ruídos metálicos, como se também não estivesse confortável com a situação.
Instalei-me no apartamento. Fiz uma pausa. Inspirei fundo e soprei.
O prédio inteiro respondeu na hora.
Admito, não foi exatamente um som musical. Foi quase um anúncio geológico. Algo entre o deslocamento de placas tectônicas e o suspiro de um animal pré-histórico expirando. A lâmpada da sala piscou. Um quadro caiu. Em algum lugar, um cachorro se urinou, amedrontado.
Mas insisti.
Descobri que a tuba, no gênero dixieland, tem uma função muito clara: tônica no tempo 1, dominante no tempo 3. Elementar. Quase um servidor público. O problema é que, no apartamento, essa simplicidade se transforma em algo repetitivo, hipnótico e, segundo o síndico, “um assédio acústico”.
No terceiro dia, tocaram a campainha.
Era o vizinho de baixo, um homem que claramente não havia escolhido morar sob solos de baixo contínuo.
— O senhor poderia… — ele hesitou.
Expliquei que estava estudando jazz tradicional, que aquilo era cultura, que Nova Orleans agradeceria. Ele respondeu que Nova Orleans ficava bem longe dali e que a casa dele estava vibrando como se tivesse vida própria.
Propus horários. Ele propôs silêncio absoluto. Chegamos a um acordo intermediário. Eu tocaria apenas em um horário socialmente aceitável: nunca.
Persisti mesmo assim, porque a tuba ensina coisas importantes. Por exemplo: humildade. Você nunca é o protagonista. Você é o chão. E, como todo chão, só é notado quando falha.
Foi aí que comecei a pesquisar oportunidades profissionais.
Descobri que o mercado para tubistas solos é vasto, no sentido em que uma playlist sem músicas é vasto.
Existem bandas, claro. Mas nenhuma delas parecia precisar de um homem que treina escondido entre um sofá e um engradado de garrafas
Considerei alternativas. Música ambiente para elevadores (não aceito). Serenatas (improvável). Trilhas para filmes de terremoto (plausível).
No fim, a tuba permaneceu. Hoje não toco mais todos os dias. O condomínio venceu. Mas, às vezes, quando estou sozinho, pego o instrumento, encho os pulmões e faço soar aquela nota grave, ancestral, que parece vir do início do mundo.
E, por um breve instante, sinto que estou sustentando alguma coisa invisível. Nem que seja a estrutura do prédio inteiro, em colapso nervoso.
(Publicado na Rubem)