por Lea Oksenberg
Me passaram essa pauta com uma pergunta que, olha… “A maré da lua pode nos salvar?”. No balcão da vida real, de quem escreve, revisa texto e lida com a crueza da notícia todo dia, a gente sabe que milagre é artigo de luxo. Olhei para o monitor e pensei que nem com reza braba, quanto mais com o ciclo da lua. A gente desenvolve um filtro de realidade que não deixa passar esse tipo de misticismo sem um riso de canto de boca.
Mas aí a gente para, toma um café e olha para o céu de Curitiba — esse cinza que, quando resolve abrir, parece que está pedindo desculpa. E percebe que essa história de maré tem um fundo de verdade que não é esotérico, é mecânico. Aqui a gente não tem o mar batendo na porta, mas vive sob umas marés invisíveis que mexem com o humor da gente. Tem dia que a maré de ânimo sobe e a cidade inteira parece que saiu do casulo; tem dia que ela vaza e o frio recolhe todo mundo num silêncio que chega a pesar nos ombros.
Essa força da lua, quer a gente queira ou não, puxa o que está guardado. São as histórias que a gente tenta organizar, as memórias que insistem em transbordar e até aquela saudade de quem está a centenas de quilômetros de distância. Não é que a lua salve a alma ou pague os boletos, mas ela nos salva de uma coisa bem específica: da ilusão de que a gente controla o fluxo. A gente não controla nada.
Talvez a salvação seja só esse entendimento de que tudo é ciclo. O texto que a gente corta hoje, a paciência que se esgota, o afeto que vai e volta… tudo faz parte desse vaivém. Saber que a maré vai virar, por mais pesado que o dia tenha sido, é o que mantém a gente no prumo. No fim, a lua não resolve a vida, mas ela garante que nada fica estático. E, para quem vive no caos, saber que amanhã o cenário é outro já é salvação suficiente.
O mar serenou
Quando ela pisou na areia
Quem samba na beira do mar é sereia
(Candeia)