por Lea Oksenberg
Olhar para os Estados Unidos hoje dá uma inveja danada, né? Lá, o povo ganha as ruas, o jovem grita, a coisa ferve. Aqui no Brasil, o silêncio da esquerda é de estranhar. O que aconteceu com aquela garra conhecida?
A verdade é que a esquerda brasileira ficou “comportada” demais. E isso não foi por acaso. Lembra lá no primeiro governo Lula, quando os grandes nomes da CUT e dos movimentos sociais viraram ministros, assessores e ganharam cargos comissionados? Pois é. Naquela hora, o megafone foi trocado pelo crachá. Quem antes organizava o protesto, passou a ter que bater o ponto no gabinete. A militância se profissionalizou e, de certa forma, se acomodou no conforto do ar-condicionado.
Enquanto isso, a juventude parece que não se enxerga mais nessas bandeiras antigas. O mundo mudou, a conversa agora é outra, e a esquerda oficial parece que ficou presa num roteiro de vinte anos atrás.
O resultado é esse vazio que se vê. A direita hoje ocupa as ruas com uma facilidade que assusta, enquanto a esquerda virou “defensora das instituições”. É importante defender a democracia? Claro que é. Mas política sem povo na rua é política anêmica, sem sangue nas veias.
Se o costume de achar nota oficial de partido substituto do grito da multidão, vamos assistir o mundo explodir lá fora enquanto aqui só se olha pela janela, esperando alguém tomar a iniciativa ou a banda passar.
Estava à toa na vida
O meu amor me chamou
Pra ver a banda passar
(Chico Buarque)
“ Assim, sob qualquer ângulo que se esteja situado para considerar esta questão, chega-se ao mesmo resultado execrável: o governo da imensa maioria das massas populares se faz por uma minoria privilegiada. Essa minoria, porém, dizem os marxistas, compor-se-á de operários. Sim, com certeza, de antigos operários, mas que, tão logo se tornem governantes ou representantes do povo, cessarão de ser operários e pôr-se-ão a observar o mundo proletário de cima do Estado; não mais representarão o povo, mas a si mesmos e suas pretensões de governá-lo. Quem duvida disso não conhece a natureza humana.” Mikhail Bakunin
Em resumo: loclupetaram-se todos. E o roteiro da esquerda não é de vinte anos atrás, é de setenta anos atrás.