11:33Carruagem de fogo

por Carlos Castelo

No Estreito de Ormuz, uma carruagem absurdamente reluzente desceu dos céus como se tivesse pegado carona num raio de sol.

Dela desembarcou um homem de vestes brancas, barba branca e um cabelo tão alvo que poderia ser multado por excesso de claridade. Sem molhar sequer a barra da túnica, ele ficou pairando sobre as águas.

— Tragam até mim três pessoas: Trump, Netanyahu e Khamenei! – ordenou como se tivesse um amplificador de show de heavy metal na garganta.

A reação foi imediata. Uma balbúrdia marítima de grandes proporções. Lanchas buzinando, satélites mudando de canal, analistas políticos com o olhar de quem acabou de perceber que a pauta do dia tinha sido sequestrada por uma intervenção divina.

Horas depois começaram a pousar os jatos.

Trump desceu primeiro, examinando o brilho da carruagem.
— Bonita, mais brilhante que ouro…
Netanyahu veio logo atrás, tentando calcular se aquilo era uma armadilha, uma oportunidade, ou apenas mais uma reunião longa.
Por fim surgiu o aiatolá Mojtaba Khamenei, figura que no Irã agora ocupa o cargo mais alto do sistema político-religioso, com autoridade sobre decisões estratégicas do país e das forças armadas.
Ele observou a cena com a calma de quem já viu muita história virar poeira. E poeira virar manchete.
O homem celestial ergueu a voz:
— Estou aqui para entender por que vocês insistem tanto em guerra.
Trump abriu um sorriso comercial.
— A guerra é ruim para os negócios. A menos que você venda segurança.
Netanyahu tirou um pequeno bloco de notas.
— A questão é sobrevivência.
Khamenei, com um leve aceno, respondeu:
— A questão também é identidade.

O vento parou para escutar.
Seguiu-se uma conversa que misturava teologia, estratégia militar e sugestões de marketing internacional.
— Já pensaram — perguntou o homem de branco — em tentar… conversar?
Houve um silêncio tão profundo que uma gaivota pediu desculpas por ter gritado em 1997.
Trump foi o primeiro a reagir:
— Conversa? Eu poderia mediar. Eu sou muito bom em falar.
Netanyahu ponderou:
— Conversar exige confiança.
Khamenei acrescentou:
— E paciência.
— Então vamos treinar — decretou o ser celestial.
Num clarão digno daqueles fogos de final de Copa do Mundo, os três se viram sentados em cadeiras de praia coloridas, cada um com um picolé na mão.
— Reunião informal — explicou o homem. — Sem discursos. Só perguntas simples. Do tipo: “Do que você tem medo?”
Trump mordeu o picolé e respondeu:
— De perder.
Netanyahu olhou o mar.
— O fim do nosso povo.
Khamenei falou:
— O esquecimento da nossa fé.
O homem suspirou, satisfeito.
— Pronto. Já começaram…
Ao anoitecer, a carruagem voltou a brilhar. Antes de partir, o Altíssimo deixou uma última recomendação:
— Às vezes, a humanidade precisa menos de líderes e mais de cadeiras de praia.
E desapareceu no horizonte, deixando as três figuras poderosas à beira-mar. Quando a veículo etéreo sumiu, os três começaram a se esmurrar para ver quem ficaria com o guarda-sol.
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